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Zuzu Angel: A Maternidade Como Instrumento de Resistência à Ditadura

© Divulgação/Instituto Zuzu Angel/Direitos Reservados

Cinco décadas atrás, a estilista Zuzu Angel sofreu um trágico acidente no Rio de Janeiro, em um incidente que foi na verdade um atentado. Este evento silenciou uma das vozes mais proeminentes contra a ditadura militar brasileira. Zuzu, à época com 53 anos, era mãe de Stuart Edgard Angel, um militante do MR8, que lutou armadamente contra o regime opressivo.

Em 1971, Stuart foi preso e torturado nas instalações do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa), onde acabou perdendo a vida. Nos cinco anos que se seguiram, Zuzu dedicou-se incansavelmente à busca por seu filho, expondo publicamente as atrocidades do regime militar.

O Papel da Maternidade na Luta Política

Segundo a historiadora Cristina Scheibe Wolff, da Universidade Federal de Santa Catarina, a trajetória de Zuzu se insere em um contexto mais amplo de mães que transformaram sua dor em ação durante as ditaduras na América do Sul. As Mães da Praça de Maio na Argentina são um exemplo emblemático dessa mobilização.

A maternidade foi utilizada como uma poderosa ferramenta política para sensibilizar a população e evidenciar a brutalidade dos regimes. Wolff explica que essa abordagem se conectava com os padrões de gênero da época, onde mulheres eram muitas vezes vistas pelo prisma da maternidade, o que as tornava mais humanas aos olhos da sociedade.

Esses movimentos desempenharam um papel crucial na deslegitimação das ditaduras na América do Sul, tornando-as menos aceitáveis para o público em geral. Essa estratégia revelou-se mais eficaz que a luta armada, que perdeu força e praticamente desapareceu no Brasil durante a década de 1970.

A Resistência de Zuzu Angel

Nascida em Curvelo, Minas Gerais, em 1921, Zuleika de Souza Netto, conhecida como Zuzu Angel, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1939. Ela começou sua carreira como costureira e se tornou uma estilista reconhecida, incorporando elementos da cultura brasileira em suas criações, que ganharam notoriedade internacional.

Após o desaparecimento de Stuart, Zuzu intensificou seus esforços para denunciar as violações de direitos humanos, buscando apoio internacional e utilizando sua fama para atrair a atenção sobre a situação no Brasil. Entre suas ações, destacou-se o contato com figuras como o secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger.

Ela também inovou ao usar a moda como uma forma de protesto, inserindo símbolos de resistência em suas coleções. Seus desfiles se tornaram verdadeiros atos políticos, onde bordados e imagens remetiam à violência e repressão do regime, transformando a arte em uma arma contra a opressão.

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