
A cidade de São Gonçalo do Amarante, na região metropolitana de Fortaleza, Ceará, tornou-se palco de uma notável construção religiosa: uma estátua de 11 metros de uma entidade, erguida no templo Palácio Estrela Negra da Quimbanda, localizado na Taíba. O monumento, idealizado pela líder religiosa Mãe Rainha das Trevas, despertou interesse sobre a Quimbanda, uma prática de matriz africana que difere de religiões tradicionais e busca a cura espiritual e o autoconhecimento.
Detalhes da Construção e Aspectos Legais
A imponente estátua foi inaugurada em 25 de julho em uma propriedade privada. De acordo com a responsável pelo templo, Mãe Rainha das Trevas, que atua como líder religiosa há quase três décadas, o investimento para conceber e erguer a estrutura superou os R$ 100 mil. A obra contou com a supervisão de um engenheiro civil para seu projeto.
Quanto à regularidade da construção, a Prefeitura de São Gonçalo do Amarante confirmou que a obra da estátua está em conformidade com a legislação local. Os processos para a emissão da Licença Ambiental e do Alvará de Construção pelo município seguiram os trâmites legais, concedidos após aprovação do Governo do Estado. Em virtude da localização do empreendimento na Área de Proteção Ambiental (APA) das Dunas do Litoral Oeste, foi necessária a autorização específica da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Mudança do Clima (SEMA).
A Quimbanda: Definição e Fundamentos
Ao contrário do que muitos pensam, a Quimbanda é compreendida não como uma religião, mas sim como uma prática magística. Essa é a explicação de Roberto Leão, praticante há três anos e Tata – um mestre ou dirigente ritualista, cujo título significa ‘pai’ ou ‘sacerdote’ na linhagem Congo-Angola. Leão, que também é pai de santo na umbanda há 20 anos, destaca que a Quimbanda é inclusiva, abarcando pessoas de diversas crenças.
A prática da Quimbanda possui raízes diaspóricas, com forte origem em matrizes africanas, mas também incorpora influências de povos originários e elementos da magia cerimonial europeia. Seu foco central reside no culto a entidades como Exus e Pombagiras. O termo ‘kimbanda’, na língua Banto (grupo etnolinguístico da África subsaariana), significa ‘curador’, sendo a palavra ‘quimbanda’ em português utilizada para designar os adeptos dessa prática.
Processo de Cura e Visão Espiritual
Assim como outras manifestações de matriz africana, os preceitos e rituais da Quimbanda são transmitidos principalmente pela oralidade, não havendo um texto sagrado único, como a Bíblia ou o Alcorão. Isso resulta em diferentes abordagens e interpretações, tornando a prática um processo individualizado de busca. Tata Roberto Leão descreve essa jornada como um mergulho profundo no autoconhecimento, sem negar as próprias ‘sombras’, para compreender a totalidade do ser e seus desejos, decidindo livremente o caminho a seguir.
Na compreensão de Roberto Leão, tempo é não-linear, com passado, presente e futuro coexistindo. Ao acessar Exus e Pombagiras, os praticantes se conectam a uma dimensão de sua própria ancestralidade. Ele reforça que a Quimbanda, em sua visão particular, é um culto aos ancestrais, uma prática ‘necromante’, onde Exus e Pombagiras são figuras centrais. Para alguns adeptos, o objetivo final é a cura espiritual que liberta do ciclo de reencarnação, vista como um ‘castigo’ para reviver aspectos da vida carnal. A plena cura permitiria que o indivíduo se tornasse um Exu ou Pombagira.
O líder espiritual enfatiza que a Quimbanda não deve ser associada ao ‘mal’, mas sim como uma prática de cura e honra à ancestralidade. É um caminho para a autocompreensão e para o desenvolvimento de uma pessoa mais completa e integrada.
