
Durante sua prisão nesta terça-feira (25), o auditor-fiscal Francisco Eliezer Viana da Silva, sob suspeita de receber mais de R$ 6,8 milhões em propina proveniente de um complexo esquema de fraudes em importações no Aeroporto de Fortaleza, foi flagrado tentando jogar seu aparelho celular no vaso sanitário ao perceber a chegada dos agentes da Polícia Federal. A informação sobre a tentativa de descarte do dispositivo foi divulgada por uma fonte próxima à investigação, conforme apuração jornalística.
A ação faz parte da Operação Snooker 2, que também resultou na detenção de dois empresários, Rodolfo Sergio Martins Maia e Hugo Andrade Mendonça Santos, no estado da Bahia. Além das prisões, a operação cumpriu quinze mandados de busca e apreensão, resultando na confiscação de bens de luxo, como veículos e relógios, em cidades do Ceará – Fortaleza, Caucaia e Eusébio – e em Salvador, Bahia. O objetivo da operação é desarticular um esquema robusto de corrupção e lavagem de dinheiro.
A equipe policial responsável pela prisão de Eliezer precisou arrombar a porta de seu apartamento, uma vez que o servidor não atendeu às chamadas. Após a entrada no imóvel, os agentes confirmaram que o auditor havia tentado se desfazer do telefone, encontrando-o na caixa d’água do vaso sanitário. O aparelho foi recuperado, mas a possibilidade de restaurar seus dados ainda é incerta.
Servidor público concursado da Receita Federal desde 1994, Francisco Eliezer ocupava um cargo no gabinete da inspetoria do Aeroporto de Fortaleza desde dezembro de 2016, com um vencimento mensal superior a R$ 30 mil. Mesmo já sob investigação em junho de 2026, ele chegou a receber uma gratificação natalina de R$ 44 mil. As investigações apontam Eliezer como o suposto líder da organização criminosa, com atividades ilícitas datadas de pelo menos 2020.
O auditor-fiscal é acusado de manipular despachos aduaneiros de forma indevida e de fornecer informações sigilosas e orientações sobre comércio exterior. Em troca desses serviços ilícitos, ele recebia as vantagens indevidas, incluindo a propina milionária. O grupo visava importar produtos de alto valor, como eletrônicos e prata, mas os declarava com valores substancialmente menores para driblar a fiscalização alfandegária, reduzir impostos e, consequentemente, ampliar os lucros. Essa fraude contava com a participação direta de Eliezer na obtenção de laudos periciais adulterados e na interferência direta nas vistorias.
A apuração da Receita Federal revelou que as movimentações financeiras entre as empresas envolvidas no esquema superaram os R$ 27 milhões. Adicionalmente, o grupo teria adquirido cerca de R$ 31,8 milhões em criptoativos, montante incompatível com as receitas formalmente declaradas. Em resposta às ações criminosas, foram bloqueados mais de R$ 26 milhões em contas bancárias de empresas e indivíduos associados ao esquema, além da apreensão de veículos importados e uma embarcação de luxo.
Os indivíduos alvos da operação podem responder por crimes como organização criminosa, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e fraudes em operações de importação.
Em defesa de Francisco Eliezer, o advogado Marcelo Oliveira expressou surpresa com a decisão da prisão do auditor-fiscal, argumentando que ele já havia sido alvo de busca e apreensão e denunciado formalmente pelo Ministério Público, sem que novos fatos justificassem a detenção atual. O advogado afirmou que está tomando as devidas medidas legais para reverter a prisão e demonstrar a inocência de seu cliente no âmbito da ação penal. Até o momento, a reportagem não conseguiu contato com as defesas dos empresários Rodolfo Sergio Martins Maia e Hugo Andrade Mendonça Santos.
Estrutura do Esquema Criminiso e Modus Operandi
As investigações detalham que o grupo criminoso possuía uma estrutura hierarquizada, dividida em quatro núcleos distintos: público, empresarial, financeiro e auxiliar. As responsabilidades eram distribuídas entre um agente público, empresários do setor de importação e indivíduos encarregados de movimentar e ocultar os ganhos ilícitos. O auditor-fiscal Francisco Eliezer, da Receita Federal, estava no epicentro deste arranjo, sendo responsável por disponibilizar informações confidenciais sobre comércio exterior, beneficiando empresas importadoras e despachantes aduaneiros associados.
O funcionamento do grupo abrangia duas frentes principais de atuação. Uma delas envolvia uma empresa importadora, gerenciada por um empresário cearense, que realizava a importação de joias de prata, mas as declarava como semijoias ou bijuterias de metal comum. Essa prática visava pagar um valor tributário significativamente menor. A denúncia aponta que o empresário recebia apoio de Eliezer para conseguir laudos periciais fraudulentos, que atestavam de forma enganosa a natureza dos materiais importados.
