PUBLICIDADE

Nova Dinâmica Eleitoral no Ceará: Candidatos Ligados a Igrejas Tradicionais Perdem Força

Marcelo Bloc

As recentes eleições no Ceará revelaram um cenário de enfraquecimento para candidaturas com vínculos a igrejas e comunidades religiosas tradicionais. Lideranças que outrora garantiam expressivas votações e mandatos, seja na Câmara dos Deputados ou na Assembleia Legislativa, viram seus números diminuírem consideravelmente, muitas vezes resultando na não reeleição ou na posição de suplência.

Este panorama contrasta fortemente com o desempenho recorde do deputado federal André Fernandes (PL), que obteve uma votação inédita de 684.372 votos, configurando a maior marca já registrada por um candidato a deputado no estado. A conjunção desses resultados sugere uma possível concentração do eleitorado conservador e religioso em prol de candidaturas mais alinhadas ao movimento bolsonarista, reconfigurando a distribuição dos votos que antes beneficiavam as figuras eclesiásticas mais estabelecidas.

Quedas Significativas entre Figuras Políticas de Origem Religiosa

Entre os nomes que enfrentaram declínio eleitoral, destaca-se Ronaldo Martins (Republicanos), tradicional representante da Igreja Universal no Ceará. Concorrendo a deputado federal, ele somou 61,1 mil votos, ficando na suplência, o que representa uma queda substancial em relação aos 104,5 mil votos obtidos em 2022. Contudo, na esfera estadual, o pastor David Durand (Republicanos) assegurou sua reeleição para a Assembleia Legislativa, embora também tenha visto sua votação cair de 78.419 em 2022 para pouco mais de 49 mil neste ano.

O enfraquecimento da representatividade religiosa também atingiu lideranças católicas da Comunidade Shalom. O ex-deputado estadual Carlos Matos (União Brasil), consagrado na comunidade, disputou uma vaga na Câmara Federal e recebeu 9.830 votos, não conseguindo se eleger. Da mesma forma, na disputa pela Assembleia Legislativa, o vereador de Fortaleza Jorge Pinheiro (PSDB), igualmente ligado ao Shalom, obteve 23.368 votos. Alcyvania Pinheiro (PL), também com vínculos com a comunidade, somou 8.997 votos para deputada federal, sem êxito em suas respectivas campanhas.

A deputada federal Priscila Costa (PL), que havia conquistado a cadeira em 2022 com mais de 74 mil votos, não garantiu a reeleição neste pleito, obtendo cerca de 47 mil votos. Paradoxalmente, seu marido, Pastor Nilson Frota (PL), fez sua estreia na vida política elegendo-se deputado estadual com 28.316 votos. Nas redes sociais, Frota se identifica como “Cristão, conservador e defensor da família”, o que ilustra a preferência do eleitorado por discursos específicos.

Outros exemplos de quedas expressivas incluem a bispa Vanessa Lima (MDB) e o apóstolo Luiz Henrique (MDB), da Igreja do Senhor Jesus, que, juntos, angariaram aproximadamente 15 mil votos, um número significativamente menor que os cerca de 64,5 mil votos registrados quatro anos antes. O apóstolo Carlos Brunido (Republicanos), do Ministério Renovação Internacional, e outras candidaturas evangélicas também não alcançaram sucesso nas urnas.

A análise dos resultados sugere que, embora o voto conservador e de base religiosa mantenha sua força no Ceará, ele pode estar se direcionando para candidatos que articulam uma pauta mais diretamente alinhada a movimentos políticos ideológicos, como o bolsonarismo, em detrimento de figuras que historicamente se apoiavam apenas na mobilização de suas bases eclesiásticas tradicionais. Esse fenômeno é reforçado pelo fato de que, entre as nove candidaturas que utilizaram o termo ‘pastor’ no nome de urna no Ceará, apenas Pastor Nilson Frota conseguiu a eleição.

Leia mais

PUBLICIDADE