
A corrida pelo Palácio do Planalto, que colocou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial, intensificou a busca pelos votos de Ciro Gomes no Ceará. No pleito para o governo estadual, o ex-candidato do PDT angariou 2.498.891 sufrágios, o que representou 46% do total, enquanto Elmano de Freitas (PT) conquistou 2.875.573 votos, ou 53%, assegurando a vitória.
Logo após o desfecho da eleição para governador, no domingo, dia 4, e a proclamação da vitória petista, líderes de ambos os lados – situacionistas e opositores – iniciaram uma mobilização para atrair os eleitores que apoiaram Ciro Gomes. Já na segunda-feira, 5, o deputado federal André Fernandes (PL), que obteve a maior votação entre os representantes cearenses na Câmara, divulgou um vídeo em suas plataformas digitais, conclamando o eleitorado aliado a votar em Jair Bolsonaro para a Presidência.
Dias mais tarde, durante um compromisso de campanha no bairro Conjunto Ceará – local onde Ciro Gomes havia inaugurado suas atividades políticas visando o ano de 2026 –, Fernandes voltou a se dirigir aos simpatizantes do ex-ministro. “Você que votou no Ciro e não votou no Jair Bolsonaro, deixe-me dizer: está na hora de dar o troco”, discursou o parlamentar, prosseguindo: “Não tomaram a eleição, não compraram voto, não botaram propaganda irregular sexta e sábado, não foi? Pois está na hora de dar o troco”.
Na sequência, o dirigente do Partido Liberal sugeriu que os votantes de oposição “conversem com essas pessoas”, sustentando que “votar nulo é a mesma coisa de eleger o Lula”. Concluindo sua fala, ele convocou: “Vamos ajudar a eleger Jair Bolsonaro”.
Governador Eleito Elmano de Freitas Também Mira Votos de Ciro
Contudo, a captação do eleitorado do ex-presidenciável não é uma meta exclusiva do deputado do PL. Em entrevista concedida à rádio O POVO CBN na semana passada, Elmano de Freitas avaliou que uma parcela dos “eleitores que votou no Ciro não é bolsonarista, votou porque admira o Ciro”. Para o governador eleito, essa é uma fatia significativa de votantes que apoiaram seu adversário e “que pode votar no Lula”.
Elmano fez referência à história política de Ciro Gomes, afirmando: “O Ciro tem uma história no campo democrático, tem uma história no campo progressista e resolveu fazer uma aliança que para mim é a negação da história dele. Mas ele tem essa história e nós temos de reconhecer”. Ele também aludiu ao chamado voto “Cirula”, destacando: “Afinal, eu vi algumas lideranças da campanha do Ciro fazendo campanha para Lula e para Ciro. Eu espero que essa franja toda possa vir para a campanha do Lula”.
Durante a mesma conversa, Elmano questionou qual seria o posicionamento de Ciro Gomes e do ex-prefeito Roberto Cláudio (União Brasil), vice na chapa derrotada, em relação ao segundo turno, se apoiariam Jair Bolsonaro ou Lula. “Qual é o candidato que Ciro vai apoiar? Qual é o candidato do Roberto Cláudio para presidente da República? Acho que isso tem que estar muito claro pra gente saber quem está do lado da democracia. Isso é parte da explicação da derrota que ele sofreu”, pontuou o gestor.
Importância Estratégica do Eleitorado Cearense no Segundo Turno
Ao longo da campanha, Ciro Gomes foi constantemente questionado sobre sua preferência para a Presidência. Ele alternava entre a afirmação de não ter um nome definido e a manifestação de simpatia por candidatos como Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), que não superaram a barreira dos dois pontos percentuais.
Em contraste, a estratégia eleitoral de Elmano de Freitas foi construída em torno de uma identificação explícita com Lula, visível tanto nos jingles de propaganda quanto nos debates em que o petista participou. Em um ato na Avenida Paulista, no último fim de semana, Lula chegou a creditar ao governador eleito a responsabilidade por “enterrar” a trajetória política de Ciro no Ceará.
No estado do Ceará, Lula obteve 63% dos votos, totalizando 3.555.263 sufrágios. Jair Bolsonaro (PL) registrou 31%, com 1.756.850 votos. A análise desses números revela uma diferença de 742.041 votos entre o apoio de Ciro Gomes para governador e o de Jair Bolsonaro para presidente, indicando que uma parcela considerável do eleitorado votou no candidato social-democrata para o governo, mas não em Bolsonaro para a Presidência — ou, inversamente, apoiou Ciro, mas não Lula.
Dessa maneira, para ambos os lados do confronto nacional, este contingente de votantes cearenses é considerado crucial para fortalecer as bases de apoio tanto de Lula quanto de Jair Bolsonaro neste segundo turno. Até o momento, Ciro Gomes e Roberto Cláudio não emitiram declarações sobre quem apoiarão na eleição nacional. A única manifestação pública do ex-candidato ao Palácio da Abolição após o primeiro turno foi para questionar a vitória de Elmano, anunciando que recorreria à justiça para investigar supostas irregularidades, incluindo decisões do STF favoráveis ao petismo na véspera da votação.
