
Desde 2015, o estado do Ceará tem testemunhado uma mudança na dinâmica das facções criminosas. Anteriormente focados no tráfico em grande escala e em operações em portos e aeroportos, esses grupos passaram a ocupar de forma mais ostensiva as áreas periféricas urbanas, estabelecendo territórios e aumentando sua influência em nível local.
Essa expansão resultou em um aumento da violência, incluindo agressões, assassinatos, expulsões de moradores e tentativas de monopólio de serviços e comércios. Em fevereiro, provedores de internet no Ceará se tornaram alvos de ataques, com uma facção criminosa exigindo parte dos lucros das empresas.
A localização geográfica estratégica do Ceará e sua infraestrutura eficiente tornam o estado atraente para criminosos que buscam expandir o tráfico de drogas e encontrar novas rotas para seus produtos ilícitos.
No fogo cruzado, os moradores vivem com medo. Uma vila em Pacatuba, na Região Metropolitana de Fortaleza, se transformou em uma área “fantasma” depois que criminosos expulsaram os moradores. No início de 2025, o Ceará enfrentou uma onda de ataques a provedores de internet, com os criminosos tentando monopolizar o serviço e exigindo taxas das empresas. Carros e estabelecimentos comerciais foram incendiados. Outro exemplo é a expulsão de moradores de um distrito inteiro em Morada Nova, onde 300 famílias foram forçadas a deixar suas casas devido a ameaças de facções.
Dados da Polícia Civil do Ceará revelam que, entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, foram registrados 219 casos de “deslocamentos forçados” de moradores em todo o estado.
Antes de se tornar um ponto estratégico para organizações criminosas, o Ceará passou por um período de ascensão das facções. Nas décadas de 1980 e 1990, a violência era caracterizada por pequenas gangues locais envolvidas em disputas territoriais. A partir de 2015, as primeiras facções começaram a surgir no estado.
Em 2016, as facções se fortaleceram, e surgiu a facção Guardiões do Estado (GDE). As facções passaram a expulsar moradores considerados simpatizantes de grupos rivais ou parentes de desafetos.
A ascensão das facções no Ceará está ligada à forma como esses grupos se articulam, criando conexões entre criminosos em diferentes cidades e estados, o que lhes dá força e permite exercer poder local.
O interesse das facções criminosas pelo Ceará se deve à sua posição estratégica e infraestrutura de portos, aeroportos e rodovias, o que torna mais barato o envio de mercadorias para países da Europa, África e América do Norte. Além do tráfico de drogas, os criminosos estão buscando outras formas de ganhar dinheiro, como extorquir comerciantes e monopolizar comércios e serviços.
Em agosto, criminosos do Comando Vermelho (CV) tentaram controlar a venda de produtos na Avenida Beira-Mar, em Fortaleza.
Especialistas apontam que a política de combate ao crime tem sido ineficiente, sendo necessário pensar a segurança pública em conjunto com lazer, moradia, saúde e educação. A superlotação dos presídios também agrava o problema, pois é onde muitos grupos criminosos se formam e se fortalecem.
A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE) informou que a expulsão de moradores é uma prática observada em vários estados do país e que está sendo combatida no Ceará por meio do mapeamento, monitoramento e prisões de suspeitos. Entre agosto e novembro, 45 suspeitos de expulsões foram presos, e 1.851 pessoas foram capturadas por integrarem organizações criminosas entre janeiro e setembro.
Fonte: g1.globo.com
