
Familiares de Álvaro Praxedes Santana, 16, e Vicente Ferreira dos Santos, 19, mortos em uma operação policial em Brasiléia, Acre, há cinco anos, exigem a reabertura do caso, arquivado sob a alegação de legítima defesa. Eles sustentam que os jovens foram executados na madrugada de 2 de outubro de 2020, uma versão que se contrapõe ao relato oficial de troca de tiros. A busca por justiça intensifica-se com a revelação de que dois dos policiais envolvidos na morte de jovens em Brasiléia — Gleyson Costa de Souza e Cleonizio Marques Vilas Boas — são os mesmos réus no assassinato da enfermeira Géssica Melo de Oliveira, ocorrido em dezembro de 2023. As famílias aguardam novas análises de evidências para o Ministério Público do Acre (MP-AC) reconsiderar o desarquivamento do processo.
A tragédia de Brasiléia em 2020
A versão da família e os detalhes da noite
A madrugada de 2 de outubro de 2020, em Brasiléia, interior do Acre, transformou-se em tragédia para as famílias de Álvaro Praxedes Santana e Vicente Ferreira dos Santos. Segundo os relatos dos pais, o capitão do Exército Antônio Lúcio Santana Júnior, pai de Álvaro, e a professora Aurieda Pereira Ferreira, mãe de Vicente, os jovens estavam com um grupo de seis rapazes e solicitaram um carro de aplicativo. Contudo, o veículo que chegou ao local não era o esperado: em seu interior, estavam policiais descaracterizados.
Acreditando na chegada do transporte solicitado, os jovens se aproximaram. Os pais relatam que, sem qualquer aviso, os policiais desceram do carro e começaram a atirar, atingindo quatro dos rapazes. Dois, Álvaro e Vicente, não resistiram. Outros dois sobreviveram com sequelas, mas, por medo de retaliações, não quiseram prestar depoimento e deixaram a cidade. Os outros dois conseguiram escapar ilesos e também não residem mais no município. As famílias acusam os policiais de terem executado os jovens e, posteriormente, “plantado” armas na cena do crime para incriminá-los e justificar a ação como legítima defesa.
Contradições e a cena do crime
Os detalhes da cena do crime, segundo as famílias, apresentam graves inconsistências em relação à versão policial de troca de tiros. Aurieda Pereira Ferreira narra que seu filho, Vicente, estava sentado em uma bicicleta, encostado em uma árvore, quando foi atingido por um primeiro disparo na mandíbula. Em seguida, ele teria sido arrastado para o meio da rua e recebido um segundo tiro à queima-roupa no coração, o disparo fatal. A mãe ainda alega que os policiais, após a execução, teriam colocado armas nas mãos dos rapazes falecidos e disparado contra o próprio carro que utilizaram, para simular um confronto. Essa afirmação é baseada no testemunho de dois dos jovens baleados que, fingindo-se de mortos, teriam presenciado a ação.
Antônio Lúcio Santana Júnior também levanta questionamentos sobre a não preservação do local do crime. Ele aponta que os corpos de Álvaro e Vicente foram arrastados por uma grande distância, causando escoriações faciais que foram comprovadas pelo Instituto Médico Legal (IML) de Rio Branco. O pai questiona a ausência de perícia no carro para verificar a angulação de supostos tiros disparados pelos jovens, bem como a não apreensão das armas dos policiais envolvidos, que, segundo ele, continuaram em serviço normalmente, sem afastamento. As famílias reforçam a denúncia de que os menores sobreviventes foram ouvidos sem a presença de pais ou advogados e teriam sido coagidos a apresentar a versão que a polícia desejava.
Perícia particular contesta versão oficial
Análise dos ferimentos e distâncias dos disparos
Um ano após as mortes, as famílias de Álvaro e Vicente contrataram uma perícia particular, elaborada pelo perito criminal aposentado Antônio Nogueira dos Santos. O relatório, concluído em 28 de julho de 2021, contradiz a narrativa oficial de troca de tiros a 15 metros de distância. Os laudos dos ferimentos dos rapazes mortos são detalhados e alarmantes.
Álvaro Praxedes Santana apresentou:
Um ferimento de entrada no tórax, com saída próxima à virilha.
Um ferimento de entrada na lombar, com exposição de vísceras.
Um ferimento de entrada na região atrás do joelho, com saída na frente.
Os exames indicaram que os tiros foram dados a uma distância não superior a 40 cm, com trajetória ligeiramente inclinada de cima para baixo. A perícia sugere que Álvaro foi atingido no joelho enquanto estava em pé, depois na lombar, e ao cair, recebeu o terceiro disparo no tórax, na posição de cima para baixo.
Vicente Ferreira dos Santos, por sua vez, teve:
Um ferimento de entrada na região da mandíbula, sem saída.
Um ferimento a curta distância no tórax.
Escoriações por arrastamento no rosto.
O documento pericial conclui que, pelas características dos ferimentos de ambas as vítimas, todos os disparos foram efetuados a curta distância e de cima para baixo, indicando que o atirador estava em pé e a vítima em um plano inferior, seja ajoelhada ou sentada, o que é incompatível com a versão de um confronto a longa distância.
Ações dos policiais e questionamentos sobre provas
A perícia alternativa também enfatizou a ausência de procedimentos cruciais que comprometeram a investigação inicial. O laudo aponta que o local do crime não foi preservado após o ocorrido, e as armas utilizadas pelos policiais, bem como os cartuchos deflagrados, não foram periciados. Essa falha impediu a determinação do calibre e tipo de armas empregadas, o que seria fundamental para corroborar ou refutar a versão policial de confronto.
A busca por justiça das famílias é dificultada ainda mais pela escassez de testemunhas dispostas a depor. Antônio Lúcio Santana Júnior, que contratou um investigador particular, relata que os sobreviventes têm muito medo de retaliações por parte da polícia, o que os impede de colaborar com a justiça. Um deles, inclusive, ainda possui um projétil alojado na cabeça. O pai de Álvaro também acusa que documentos enviados à Corregedoria da Polícia Militar teriam sido rasurados, e lamenta que a justiça tenha se baseado apenas nas versões dos executores.
Vínculo com o caso Géssica Melo e o clamor por justiça
Os PMs envolvidos e o “modus operandi”
Um dos aspectos mais perturbadores do caso é a revelação de que dois dos policiais envolvidos nas mortes de Álvaro e Vicente, Gleyson Costa de Souza e Cleonizio Marques Vilas Boas, são os mesmos que respondem pelo assassinato da enfermeira Géssica Melo de Oliveira, ocorrido em dezembro de 2023. Essa conexão, três anos após os eventos de Brasiléia, levanta sérias preocupações sobre um possível “modus operandi” da parte dos agentes.
O pai de Álvaro, Antônio Lúcio Santana Júnior, ressalta a semelhança entre os casos. Ele afirma que, no episódio envolvendo Géssica Melo, os policiais também alegaram que a enfermeira havia atirado na direção deles e, posteriormente, teriam “plantado” uma arma ao lado do corpo para justificar a ação. Os dois policiais se tornaram réus no caso Géssica em fevereiro deste ano, e o processo segue em andamento, com audiências de instrução sucessivamente adiadas. Para as famílias de Álvaro e Vicente, essa ligação fortalece a convicção de que seus filhos foram vítimas de uma conduta policial violenta e sistemática.
Desafios na busca por reabertura e depoimentos
Apesar das novas evidências apresentadas pela perícia particular e da chocante conexão com o caso Géssica Melo, a reabertura do caso de Álvaro e Vicente enfrenta obstáculos. O Ministério Público do Acre (MP-AC) informou que, para requerer o desarquivamento e proceder com novas investigações, são necessárias “novas informações e evidências”. Contudo, o MP-AC avalia que o relatório do perito particular, por si só, não traz fatos novos que justifiquem imediatamente o desarquivamento, embora a Promotoria de Justiça Criminal de Brasiléia aguarde o encaminhamento formal de um pedido de reanálise para avaliar a situação.
O advogado das famílias, Walisson dos Reis Pereira, já se reuniu com o MP em Brasiléia para discutir o pedido. Adicionalmente, o pai de Álvaro protocolou uma denúncia na Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, na tentativa de obter uma investigação independente. A persistência dos pais, que não se conformam com o arquivamento e a versão oficial, é um testemunho da luta incansável por justiça. “Meu filho foi executado”, lamentou a mãe de Vicente, Aurieda, descrevendo a interrupção de uma vida promissora de forma “cruel, desumana e covarde”.
Conclusão
A luta das famílias de Álvaro Praxedes Santana e Vicente Ferreira dos Santos por justiça permanece ativa, impulsionada pela convicção de que seus filhos foram vítimas de execução policial. O relatório pericial particular, somado à chocante revelação da participação dos mesmos policiais – agora réus no caso da enfermeira Géssica Melo – reforça a necessidade de uma reanálise aprofundada. Enquanto o Ministério Público do Acre condiciona a reabertura do caso a novas evidências, a sociedade civil e os familiares continuam a clamar por transparência, rigor na investigação e responsabilização, assegurando que a verdade prevaleça e que atos de violência estatal não permaneçam impunes.
FAQ
Quem eram Álvaro Praxedes Santana e Vicente Ferreira dos Santos?
Eles eram jovens de 16 e 19 anos, respectivamente, mortos em 2 de outubro de 2020 em Brasiléia, Acre, durante uma operação policial.
Qual a principal acusação das famílias contra os policiais?
As famílias alegam que os jovens foram executados pelos policiais, que teriam “plantado” armas na cena do crime para justificar a ação como legítima defesa.
Há alguma ligação entre este caso e outras ocorrências policiais recentes?
Sim. Dois dos policiais envolvidos nas mortes de Álvaro e Vicente, Gleyson Costa de Souza e Cleonizio Marques Vilas Boas, são os mesmos que se tornaram réus pelo assassinato da enfermeira Géssica Melo de Oliveira em dezembro de 2023, também no Acre.
O que o Ministério Público do Acre diz sobre a reabertura do caso?
O MP-AC informou que aguarda o encaminhamento formal de um pedido de reanálise e que pode requerer o desarquivamento se houver “novas informações e evidências” que justifiquem a medida, embora o laudo particular não tenha sido inicialmente considerado como tal.
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