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Comunidade quilombola Mesquita: 280 anos de história e território ampliado em Goiás

Agência Brasil

A comunidade quilombola Mesquita, localizada em Cidade Ocidental, Goiás, vive um momento de celebração e esperança. Com uma história que remonta a 280 anos, o grupo acaba de ter seu território oficialmente reconhecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A decisão, divulgada em 19 de dezembro, estabelece a área total do território em 4,1 mil hectares, um aumento de 80% em relação ao que a comunidade ocupa atualmente. Este reconhecimento representa um marco crucial para as aproximadamente 1,1 mil famílias, totalizando mais de duas mil pessoas, que agora aguardam a etapa de desintrusão. Este processo visa remover ocupantes irregulares, incluindo fazendeiros da soja, abrindo caminho para a plena posse de suas terras ancestrais e a retomada de seu modo de vida tradicional.

A vitória do reconhecimento territorial e a luta pela posse

O recente reconhecimento do território da comunidade quilombola Mesquita pelo Incra é um divisor de águas na longa trajetória de resistência e luta por direitos. A decisão oficializa uma área que é significativamente maior do que a atualmente ocupada, corrigindo uma injustiça histórica e abrindo caminho para a plena fruição dos direitos territoriais da comunidade. Este processo de reconhecimento é complexo, envolvendo estudos antropológicos, históricos e cartográficos, que validam a ocupação tradicional e a ligação inalienável do grupo com a terra.

Impacto na vida dos moradores e a proteção ambiental

Para a comunidade, o reconhecimento não é apenas uma formalidade legal; ele traz consigo a esperança de uma transformação profunda no cotidiano de seus membros. Walisson Braga, uma jovem liderança quilombola, enfatiza que a retomada da posse permitirá não apenas reaver os 80% adicionais do território, mas também interromper o processo devastador de desmatamento na área do Cerrado. A ação de grileiros e fazendeiros tem comprometido a integridade ambiental da região, ameaçando a biodiversidade e os recursos naturais essenciais para o sustento da comunidade.

A proteção da natureza e a exploração sustentável são pilares do modo de vida quilombola. Com a terra em mãos, os moradores esperam revitalizar suas práticas agrícolas e econômicas. Braga aponta que, devido à invasão e à redução de seu território, muitos membros da comunidade foram forçados a buscar empregos precários, os chamados subempregos, distantes de suas casas e de suas tradições. O retorno à agricultura em suas terras ancestralmente protegidas representa não apenas segurança alimentar e geração de renda, mas também a reafirmação de uma identidade cultural intrinsecamente ligada à terra e ao Cerrado.

Celebração e resistência: a Festa do Marmelo

A notícia do reconhecimento foi recebida com grande alívio e entusiasmo pela comunidade. Em 11 de janeiro, a tradicional Festa do Marmelo será um momento de dupla celebração. Este fruto, além de ser uma importante fonte de renda para os agricultores locais, simboliza a resiliência e a resistência da comunidade diante das invasões e desafios. A festa, que já é um evento cultural significativo, ganhará um novo significado, transformando-se em um marco da vitória e da esperação de um futuro mais justo e próspero. A celebração não apenas honra as tradições, mas também projeta a força da comunidade na busca por seus direitos.

Reparação histórica e o legado do Mesquita

O Incra argumenta que o território ocupado pela comunidade Mesquita desde o século 18 desempenhou um papel fundamental na construção de Brasília, a capital federal. Este reconhecimento transcende a questão da posse da terra; ele se insere no contexto de uma dívida histórica e moral com os descendentes de escravizados no Brasil. A publicação da decisão do Incra representa um passo significativo no processo de reparação histórica, especialmente para aqueles que têm sofrido e ainda sofrem com a grilagem de suas terras.

O papel do Incra e a luta contra a grilagem

A chefe da Divisão de Territórios Quilombolas do Incra no Distrito Federal e Entorno, Maria Celina, reforça que a decisão aborda diretamente a realidade das invasões na área ao longo dos anos. Essas invasões não apenas diminuíram o acesso dos quilombolas a terras de plantio e moradia, mas também interromperam caminhos tradicionais que cortam o território, desarticulando a organização espacial e social da comunidade. A superintendente regional do Incra, Claudia Farinha, complementa que o reconhecimento assegura o direito à terra ancestral e protege as famílias da especulação imobiliária, um flagelo que tem assolado diversas comunidades tradicionais no país. O Incra, ao reconhecer e demarcar esses territórios, atua como um garantidor de direitos fundamentais, protegendo não apenas a terra, mas a cultura, a história e o futuro desses povos.

A pesquisa antropológica é crucial para fundamentar esses reconhecimentos. Estudos detalhados revelaram que os quilombolas do Mesquita tiveram uma participação ativa e essencial na fase inicial da construção de Brasília. Eles foram responsáveis por erguer cantinas, hospedagens e refeitórios que serviam aos milhares de migrantes que chegavam à nova capital. Além disso, desempenharam um papel vital no abastecimento dos canteiros de obras com alimentos, em uma época em que a produção agrícola na região era quase inexistente. Essa contribuição sublinha a profunda ligação histórica e a importância inegável da comunidade Mesquita para a formação e desenvolvimento do Distrito Federal e seu entorno.

Um futuro de autonomia e preservação

O reconhecimento do território quilombola Mesquita representa uma vitória monumental na luta por justiça social e ambiental. É a concretização de uma reparação histórica que reverbera através de séculos de resistência e contribuição. A expectativa pela desintrusão dos ocupantes irregulares e a subsequente retomada plena das terras prometem não apenas a recuperação do espaço físico, mas a revitalização de um modo de vida tradicional, baseado na sustentabilidade e na cultura. Este momento marca o início de uma nova fase para as famílias do Mesquita, onde a autonomia sobre sua terra permitirá o florescimento da agricultura, a proteção do Cerrado e a perpetuação de suas ricas tradições para as futuras gerações, reafirmando seu legado e sua importância para o Brasil.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que é a comunidade quilombola Mesquita?
A comunidade quilombola Mesquita é um agrupamento de famílias descendentes de africanos escravizados, com uma história de 280 anos, localizada em Cidade Ocidental, Goiás. Ela é reconhecida por suas tradições culturais, modo de vida sustentável e luta pela posse de suas terras ancestrais.

O que significa o reconhecimento do território pelo Incra?
O reconhecimento pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) oficializa a área da comunidade como um território quilombola. Para Mesquita, isso significa que a área total reconhecida é de 4,1 mil hectares, um aumento de 80% em relação ao que a comunidade ocupava, garantindo seus direitos territoriais e abrindo caminho para a desintrusão de ocupantes irregulares.

O que é o processo de desintrusão?
Desintrusão é a etapa subsequente ao reconhecimento territorial, onde ocupantes que não têm direito legal à terra (como grileiros e fazendeiros irregulares) são retirados do território reconhecido. É um passo crucial para que a comunidade quilombola possa exercer plenamente a posse de suas terras ancestrais.

Como a comunidade Mesquita contribuiu para a construção de Brasília?
De acordo com pesquisas antropológicas, os quilombolas do Mesquita tiveram um papel fundamental na construção de Brasília no século 20, ajudando a erguer estruturas como cantinas, hospedagens e refeitórios para os migrantes, além de serem responsáveis por uma parcela significativa do abastecimento de alimentos para os canteiros de obra em uma região que na época tinha pouca produção agrícola.

Para mais informações sobre a luta por direitos territoriais e a preservação do Cerrado, explore fontes confiáveis e acompanhe as notícias sobre comunidades tradicionais no Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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