
No coração do Cariri cearense, uma tradição natalina secular resplandece, mantendo viva a essência cultural e religiosa da região: as lapinhas do Cariri. Essas encenações folclóricas, que celebram o nascimento de Jesus e se estendem até o Dia de Reis, são mais do que meras peças teatrais; elas representam um elo profundo com o passado, transmitido de geração em geração. Desde Crato a Juazeiro do Norte, grupos dedicados, formados por crianças, adolescentes e adultos, perpetuam esses rituais, colorindo o período festivo com música, dança e devoção. As lapinhas, consideradas um verdadeiro presépio vivo, não apenas narram a história sagrada, mas também fortalecem os laços comunitários e culturais, assegurando que o espírito do Natal continue a inspirar e a unir pessoas em torno de um legado inestimável.
A chama da tradição: lapinhas do Cariri como patrimônio cultural
Zulene Galdino e a preservação em Crato
Mestra Zulene Galdino, aos 76 anos, personifica a dedicação à cultura popular na Vila Novo Horizonte, periferia de Crato, no coração do Cariri cearense. Reconhecida como Mestra da Cultura pelo Governo do Estado do Ceará, ela pacientemente guia crianças e adolescentes nos ensaios de sua lapinha, transmitindo versos e passos que celebram a noite de Natal. Este trabalho é mais que uma performance; é um ato de preservação, um legado familiar. “Quem me ensinou foi minha mãe. Ela dizia que o presépio vivo era a história mais linda do mundo”, relata Zulene, cujo grupo já viu gerações – filhos e netos das mesmas famílias – passarem por suas fileiras, mantendo a tradição acesa. As celebrações se estendem anualmente até o Dia de Reis, em 6 de janeiro, culminando na simbólica queima da Lapinha, um rito que encerra o ciclo festivo e renova a esperança para o próximo ano.
Lapinha Santa Clara: um legado de 113 anos em Juazeiro do Norte
Em Juazeiro do Norte, cidade vizinha e polo da devoção no Cariri, encontra-se a Lapinha Santa Clara, reverenciada como a mais antiga da região, ostentando 113 anos de existência ininterrupta. Sua fundação, permeada pela orientação e bênção do Padre Cícero, confere-lhe um status quase mítico. Ao longo de sua trajetória centenária, a Lapinha Santa Clara foi conduzida por três mestras notáveis: a fundadora Teodora, seguida por sua filha Tatai, e posteriormente por sua neta, Vanda Pereira da Silva. Atualmente, a coordenação está nas mãos de Damião Felipe, viúvo da Mestra Vanda, que lidera um grupo de aproximadamente 30 “brincantes”, como são chamados os participantes. Damião descreve a essência do grupo: “A lapinha é uma visita ao Menino Jesus no presépio. É uma louvação religiosa.” Diferenciando-se de outros grupos, a Santa Clara é uma “lapinha romeira”, percorrendo sete igrejas e realizando apresentações em diversas cidades do Cariri, levando sua mensagem de fé e folclore por toda a região. Entre suas peculiaridades, destacam-se a presença de um romeiro representando o próprio Padre Cícero e a encenação de Santa Clara, a santa católica italiana que dá nome ao grupo.
O folclore e a fé: os significados por trás das encenações
A origem etimológica e a simbologia do presépio
Para compreender a profundidade das lapinhas, é essencial mergulhar em suas raízes etimológicas e culturais. O renomado folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu “Dicionário do Folclore Brasileiro”, esclarece que “lapinha” é a denominação popular para “pastoril”. Ele define pastoril como um conjunto de “cantos, louvações, loas, entoadas diante do presépio na noite do Natal, aguardando-se a missa da meia-noite”. A origem do nome “lapinha” é ainda mais antiga e simbólica. Cascudo explica que “Lapa, lapinha, é sinônimo tradicional de presépio”. Essa conexão remonta ao Protoevangelho de Tiago (cap. XVIII), que narra que a Sagrada Família se recolheu a uma caverna, ou lapa, onde Jesus Cristo nasceu. A caverna, cova ou gruta transcende a mera geografia, sendo tradicionalmente associada aos mistérios, à ciência secreta, aos conhecimentos sobrenaturais e à sabedoria ancestral. É, metaforicamente, a “escola superior da sabedoria” e a “morada dos primeiros homens”, marcando o início da inteligência analítica humana e conferindo às lapinhas um profundo significado histórico e espiritual.
Crianças e jovens: protagonistas da fé e da cultura
Um dos aspectos mais vibrantes das lapinhas no Cariri cearense é o protagonismo das novas gerações. Esses grupos atraem um grande número de estudantes durante o período de férias escolares, majoritariamente crianças, mas também adolescentes que abraçam a oportunidade de participar. Nas encenações folclóricas da noite de Natal, os jovens assumem papéis cruciais, representando Jesus, Maria e José, além de anjos, pastores, animais e até mesmo elementos celestiais como o sol e a estrela de Belém. Lucas Eduardo Gomes Lima, de 19 anos, é um exemplo dessa dedicação. Atualmente, ele toca zambumba na Lapinha Santa Clara, mas já interpretou diversos outros personagens ao longo dos anos. Ele expressa a importância desse envolvimento: “É muito importante manter viva essa cultura. Cristo nos deu a vida, todo ano temos a oportunidade de agradecer e adorar”. Maria Geovana Santos, de 13 anos, que participa da lapinha há dois anos, compartilha o entusiasmo: “É muito legal vir para os ensaios. Eu me sinto lisonjeada ao saber que outras pessoas vão me conhecer e se sentirem motivadas a participar e a valorizarem a cultura do nosso Cariri”. A participação infantil e juvenil não apenas garante a continuidade da tradição, mas também instila um profundo senso de identidade cultural e comunitária, assegurando que o legado das lapinhas continue a encantar por muitas gerações.
Perguntas frequentes sobre as lapinhas do Cariri
O que são as lapinhas do Cariri e qual a sua importância?
As lapinhas do Cariri são encenações folclóricas e religiosas da noite de Natal, que celebram o nascimento de Jesus Cristo. Consideradas um “presépio vivo”, elas envolvem música, dança e representações de personagens bíblicos, transmitindo a história sagrada e a cultura local de geração em geração, fortalecendo a fé e os laços comunitários.
Qual é a lapinha mais antiga do Cariri mencionada no texto?
A Lapinha Santa Clara, localizada em Juazeiro do Norte, é a mais antiga do Cariri, com 113 anos de existência. Ela foi criada com a orientação do Padre Cícero e é conhecida por ser uma “lapinha romeira”, que visita diversas igrejas e cidades da região.
Até quando ocorrem as celebrações das lapinhas?
As festividades das lapinhas geralmente se iniciam na noite de Natal e se estendem anualmente até o Dia de Reis, em 6 de janeiro. Nesta data, ocorre a queima simbólica da Lapinha, marcando o encerramento do ciclo de celebrações natalinas e a renovação para o ano seguinte.
Para uma experiência cultural e espiritual única, explore as vibrantes lapinhas do Cariri e mergulhe em uma tradição natalina que encanta e une gerações.
Fonte: https://g1.globo.com
