
O governo federal está na fase final de elaboração de um decreto que estabelecerá as diretrizes para o descarte adequado e a reciclagem de baterias de veículos elétricos no Brasil. A normativa, cuja publicação está prevista para antes do final do ano, tem como objetivo principal definir a responsabilidade de fabricantes e distribuidores sobre o ciclo de vida desses componentes essenciais para a mobilidade elétrica.
A urgência da medida se justifica pela projeção do Ministério do Meio Ambiente, que estima que cerca de 500 mil baterias de veículos eletrificados estarão inoperantes nos próximos dez anos. Esse volume considerável de resíduos demanda uma estrutura robusta e sustentável para seu tratamento.
Inovação e Desafios no Reaproveitamento de Materiais
Em paralelo à futura regulamentação, pesquisadores e empresários já estão focados em desenvolver soluções para o reaproveitamento desses materiais. A Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com uma empresa privada, por exemplo, desenvolveu um método para extrair componentes valiosos das baterias, como o lítio e o cobalto, que são minerais altamente demandados globalmente.
Em uma unidade industrial que processa diversos produtos eletrônicos desde 2021, a técnica de recuperação permite a reutilização de até 97% dos minerais críticos. O processo envolve duas etapas: uma separação física inicial que resulta na formação da “black mass” (massa preta), um material líquido presente nos itens, seguida de um procedimento químico que isola os componentes minerais.
Contudo, o Brasil enfrenta um desafio na destinação desses materiais. Atualmente, grande parte do cobalto recuperado é utilizada como fertilizante na agricultura. O país ainda não possui uma indústria especializada na fabricação de novas células de baterias, o que leva à exportação de minerais estratégicos como o lítio, que não encontram aplicação na cadeia produtiva nacional de novas baterias.
Fortalecendo a Logística Reversa para a Sustentabilidade
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em vigor desde 2010, já proíbe o descarte inadequado de baterias eletrônicas. No entanto, diante de uma frota de mais de seis mil veículos eletrificados no país e em constante crescimento, o governo federal, sob a atual administração, avalia a necessidade de um novo decreto para aprimorar e estruturar a logística reversa.
A iniciativa visa estabelecer obrigações e responsabilidades claras para montadoras e distribuidoras, garantindo um caminho sustentável para o descarte e a reciclagem das baterias de carros elétricos.
A Green Eletron, associação que trabalha com a logística reversa de eletroeletrônicos, reforça que a política de reuso para materiais de baterias de veículos elétricos e motocicletas, embora complexa, é fundamental. Segundo Ademir Brescansin, gerente-executivo da associação, a criação de um sistema eficaz de logística reversa demanda investimentos significativos na infraestrutura de coleta, transporte e reciclagem.
Ele enfatiza a importância de um planejamento cuidadoso para dimensionar esses custos e otimizá-los ao máximo, a fim de evitar impactos substanciais que poderiam se refletir no preço final dos produtos para o consumidor.
