
No contexto do Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol, o vice-presidente do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Renato Jorge Alves, enfatiza a relevância de investir em medidas preventivas. Conforme o especialista, a antecipação é a estratégia mais eficaz para evitar futuras complicações cardiovasculares, uma preocupação crescente na saúde pública.
Detecção Precoce e Aconselhamento Médico
Alves informou, em entrevista à Agência Brasil, sobre a recomendação de um estudo publicado em setembro de 2025, que sugere a dosagem do colesterol em todas as crianças a partir dos 10 anos de idade. Ele ressalta a importância de exames preventivos, incluindo os níveis de colesterol e glicose, como um passo crucial para a manutenção da saúde. O médico também salienta que a adoção de hábitos de vida saudáveis é imprescindível para mitigar o acúmulo de fatores de risco que podem potencializar as chances de um infarto, mesmo na presença de colesterol elevado.
Caso os exames apontem níveis elevados de colesterol, a orientação é buscar acompanhamento profissional imediato e seguir rigorosamente o plano de tratamento estabelecido. O cardiologista adverte contra a interrupção da medicação, classificando como “falácia” as orientações encontradas em mídias sociais que desaconselham o uso de remédios. Ele alerta que a suspensão do tratamento, tal como ocorre com diabetes e hipertensão, resulta na elevação dos níveis de colesterol, aumentando o risco de complicações graves.
Impacto da Alimentação e Estilo de Vida
A Sociedade Brasileira de Cardiologia reforça que o colesterol alto está diretamente associado a padrões de vida que comprometem não apenas a saúde cardíaca, mas o equilíbrio metabólico global. Renato Jorge Alves desaconselha categoricamente a popular “dieta carnívora”, que se restringe ao consumo de carne e exclui alimentos de origem vegetal, classificando-a como uma “invenção” sem base científica para a redução do colesterol.
Segundo o especialista, uma alimentação balanceada deve integrar proteínas, carboidratos e gorduras em proporções adequadas. Ele explica que dietas exclusivamente à base de carne são ricas em gordura saturada, o que impulsiona o aumento do colesterol LDL, comumente conhecido como o “colesterol ruim”. Pacientes com hipercolesterolemia preexistente devem moderar o consumo de carne vermelha, visto que o excesso pode agravar os níveis de LDL, além de elevar o ácido úrico e fomentar a formação de placas de gordura nas artérias, elevando o risco cardiovascular. Em síntese, o cardiologista afirma que não se trata de uma dieta recomendável.
Para combater o colesterol elevado, as diretrizes primárias incluem a adoção de uma dieta nutritiva e a prática regular de atividade física. Alves recomenda a restrição do consumo excessivo de gordura saturada, presente em itens como carne vermelha, chocolates, frios e embutidos, bem como da gordura trans, encontrada em alimentos ultraprocessados como salgadinhos e biscoitos recheados, a qual ele aponta como a mais prejudicial.
O médico esclarece que ajustes dietéticos podem reduzir o colesterol em 5% a 10%, uma vez que aproximadamente 70% da substância é naturalmente sintetizada pelo organismo. Contudo, níveis que superam 300 miligramas por decilitro (mg/dL) frequentemente indicam uma predisposição genética, exigindo, nesses cenários, intervenção medicamentosa em conjunto com as alterações no estilo de vida. A recomendação de atividade física abrange entre 150 e 300 minutos semanais de exercícios.
Além disso, a qualidade do sono exerce influência direta no metabolismo. A privação de sono pode contribuir para o aumento do colesterol e dos triglicerídeos, uma gordura associada a processos inflamatórios nas artérias. Alves enfatiza que a aterosclerose não é meramente um acúmulo de gordura, mas também um processo inflamatório. O estresse, por sua vez, também pode impactar o controle do colesterol e elevar a pressão arterial.
Tratamentos e Combate à Desinformação
Para casos de hipercolesterolemia de origem genética, o tratamento farmacológico é indispensável, com destaque para o uso de estatinas, prescritas por um profissional de saúde. O cardiologista reforça veementemente que o tratamento medicamentoso não deve ser descontinuado pelo paciente. Se a estatina, de forma isolada, não alcançar os objetivos de colesterol definidos pelo médico, outros fármacos podem ser incorporados ao regime terapêutico, considerando o risco cardiovascular individual de cada paciente.
Atualmente, as estatinas estão disponíveis em versões genéricas, tornando-as mais acessíveis à população. Alves manifesta preocupação com a disseminação de informações falsas sobre esses medicamentos nas plataformas digitais. Ele observa que muitos, inclusive profissionais, promovem narrativas de que o colesterol não é uma condição real ou que as estatinas são prejudiciais, o que ele atribui a táticas de “marketing pessoal” sem embasamento científico. O especialista reitera que a robustez das evidências científicas que comprovam os benefícios das estatinas persiste há mais de três décadas, desde a publicação do primeiro grande estudo em 1994.
