
Mulheres negras, com idades que somam mais de trezentos anos, protagonizaram um ato de resistência e luta por direitos em Brasília. Maria Adelina, 77, Valmira dos Santos, 83, Maria de Lourdes, 88, e Maria dos Santos Soares, 101, uniram-se a milhares de outras mulheres de todo o país na 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, realizada em 25 de novembro.
O objetivo central da marcha foi a busca por reparação e o direito ao “bem viver”. A diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, destacou a importância do evento em um momento de polarização e ascensão de movimentos conservadores. Segundo ela, a luta por reparação é fundamental, uma vez que as mulheres negras desempenharam um papel crucial na construção do país. “Tudo que você olha em volta tem a mão de mulheres negras”, afirmou.
Dona Maria dos Santos Soares, carinhosamente conhecida como Dona Santinha, é um exemplo inspirador de perseverança. Aos 101 anos, essa ativista, natural de Minas Gerais e residente no Rio de Janeiro, participou da marcha com o mesmo vigor de décadas atrás. “Eu sou muito audaciosa e eu tenho um espírito político desde pequena… Sempre fui destemida. E, agora, mais do que nunca. Eu não sei ser indiferente aos fatos”, declarou.
Dona Santinha também esteve presente na primeira edição da marcha, em 2015, e expressou sua esperança de que o movimento continue a crescer e a transformar a realidade cruel enfrentada pela população negra. Ela compartilhou suas experiências de discriminação ao longo da vida, como a proibição de frequentar bares devido à sua cor, e celebrou os avanços conquistados, como a criminalização do racismo.
Valdecir Nascimento, do Comitê Nacional da Marcha, enfatizou o amadurecimento e a estratégia do movimento ao longo dos últimos dez anos. Ela ressaltou a importância da coletividade e da continuidade da luta, afirmando que “sozinhas a gente não vence”. Valdecir descreveu as mulheres negras como “gestoras do impossível”, que persistem na luta por um futuro melhor, mesmo diante de um país racista e hostil.
Com arte, música, performances e vozes unidas, as mulheres negras marcharam pelas ruas de Brasília, carregando suas histórias, suas dores e suas esperanças. Jurema Werneck ressaltou que a presença de mulheres mais velhas na marcha serve como um lembrete de que a luta é contínua e um compromisso de todas. “Enquanto for possível, todas nós ocuparemos as ruas; enquanto for necessário, todas nós ocuparemos as lutas todas em todas as direções, porque o Brasil precisa ser um lugar diferente, o mundo precisa ser um lugar diferente”, afirmou. Dona Santinha, com sua sabedoria e experiência, resume o espírito da marcha: “Eu me sinto uma andorinha, com sua gotinha. Ajuda, né?”.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
