
O esporte paralímpico brasileiro vivenciou um ano de performances marcantes e desafios significativos, inaugurando o ciclo preparatório para os Jogos de Los Angeles em 2028. A temporada paralímpica de 2024 foi notável pelos resultados excepcionais em Campeonatos Mundiais, com o Brasil atingindo o topo do pódio em modalidades como atletismo e judô, estabelecendo novos recordes e consolidando a força dos atletas nacionais no cenário global. Contudo, o período também foi palco de tensões nos bastidores, especialmente no tênis de mesa, onde um impasse entre atletas e a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) sobre exigências do programa Bolsa Atleta gerou polêmica. O otimismo, no entanto, prevalece com o início de 2025, impulsionado por conquistas inéditas e a promessa de futuros sucessos.
Sucessos históricos no cenário global
A temporada de 2024 foi um marco para o esporte paralímpico brasileiro, com os atletas demonstrando uma capacidade extraordinária de superação e excelência. Em diversas modalidades, o Brasil não apenas conquistou medalhas, mas também redefiniu padrões de desempenho, alcançando posições inéditas e consolidando sua relevância no panorama internacional. O caminho para os Jogos Paralímpicos de Los Angeles em 2028 começou com uma série de feitos que enchem de orgulho a nação, destacando a dedicação e o talento dos paratletas.
O brilho do judô paralímpico
Realizado em maio, na cidade de Astana, Cazaquistão, o Campeonato Mundial de Judô Paralímpico testemunhou um feito histórico para o Brasil. A delegação brasileira conquistou 13 pódios, sendo cinco ouros, liderando o quadro de medalhas de forma inédita. Entre os grandes nomes que brilharam, destacam-se a paulista Alana Maldonado, que se tornou tricampeã mundial na categoria até 70 quilos (kg) da classe J2 (baixa visão), e o paraibano Wilians Araújo, bicampeão na categoria acima de 95 kg da classe J1 (cego total).
A competição também foi palco de uma emocionante final 100% brasileira na categoria acima de 70 kg da classe J2, onde Rebeca Silva superou a também paulista Meg Emmerich, mostrando a profundidade do talento nacional. Além disso, foram conquistados ouros inéditos pela carioca Brenda Freitas na categoria até 70kg e pela potiguar Rosi Andrade na categoria até 52 kg, ambas na classe J1. Esses resultados não apenas reforçaram a supremacia brasileira no judô paralímpico, mas também inspiraram uma nova geração de atletas.
Atletismo paralímpico: Brasil no topo mundial
Em outubro, a equipe brasileira de atletismo paralímpico fez história em Nova Déli, Índia, ao encerrar o Campeonato Mundial no topo do quadro de medalhas. Com um impressionante total de 15 ouros, 20 pratas e 9 bronzes, o Brasil superou a forte equipe chinesa, um feito notável, considerando que esta foi apenas a segunda vez que a China não ocupou o primeiro lugar na competição nas últimas edições.
A estrela verde e amarela no solo indiano foi, sem dúvida, Jerusa Geber. A atleta acreana conquistou dois ouros, consagrando-se tetracampeã dos 100 metros rasos da classe T11 (cego total). Com essa performance, Jerusa alcançou 13 pódios em Mundiais (sete ouros, cinco pratas e um bronze), superando a marca de 12 medalhas (oito ouros e quatro pratas) da lendária mineira Terezinha Guilhermina, que competia na mesma categoria. A conquista coletiva e individual no atletismo reforçou a imagem do Brasil como uma potência no esporte paralímpico.
Conquistas em outras modalidades de verão
Além do judô e atletismo, outras modalidades contribuíram para a brilhante temporada brasileira. No Campeonato Mundial de Canoagem, em Milão, o sul-mato-grossense Fernando Rufino conquistou o único ouro brasileiro nos 200 metros (m) da classe VL2 (atletas que utilizam tronco e braços na remada), replicando o desempenho da final paralímpica dos Jogos de Paris em 2024, com o paranaense Igor Tofalini em segundo. O país acumulou cinco pódios na Itália.
O Campeonato Mundial de Ciclismo de Estrada, em Ronce, Bélgica, também em agosto, viu o paulista Lauro Chaman assegurar o tricampeonato da prova de resistência da classe C5 (deficiências moderadas de membros superiores). Já no ciclismo de pista, realizado no Velódromo do Rio de Janeiro em outubro, a equipe brasileira obteve nove medalhas, com destaque para o ouro – e recorde – da paulista Sabrina Custódia no contrarrelógio (1 km) da classe C2 (comprometimento físico-motor que não impede a utilização de uma bicicleta convencional).
Na Copa do Mundo de Tênis em Cadeira de Rodas, disputada em Antalya, Turquia, a seleção brasileira da classe quad (atletas com limitações em ao menos três membros) alcançou a final pela primeira vez, conquistando a medalha de prata ao ser superada pela Holanda. Na categoria júnior, o Brasil foi semifinalista, ficando em quarto lugar, com participações importantes dos mineiros Vitória Miranda e Luiz Calixto. Ambos também brilharam em Grand Slams, com Vitória campeã de simples e duplas femininas no Aberto da Austrália e em Roland Garros, e Luiz vencedor nas duplas masculinas na Austrália.
Em setembro, o Campeonato Mundial de Natação em Singapura apresentou uma disputa equilibrada pelo topo do quadro de medalhas. O Brasil ficou em sexto lugar, com 13 medalhas de ouro e um total de 39 pódios. O mineiro Gabriel Araújo, conhecido como Gabrielzinho, da classe S2 (a segunda de maior comprometimento físico-motor), e a pernambucana Carol Santiago, da S12 (baixa visão), foram os destaques, conquistando três ouros cada.
No Campeonato Mundial de Halterofilismo, também em outubro, a seleção feminina conquistou a medalha de ouro por equipes, com a carioca Tayana Medeiros, a mineira Lara Lima e a paulista Mariana d’Andrea. Individualmente, Mariana e Tayana garantiram a prata nas categorias até 73 kg e 86 kg, respectivamente, enquanto Lara ficou com o bronze entre as atletas até 41 kg.
O futuro promissor dos esportes de inverno
O esporte paralímpico brasileiro não se restringe apenas às modalidades de verão. O início de 2025 já trouxe resultados animadores para as modalidades de inverno, apontando para um futuro promissor e a expansão do reconhecimento internacional dos atletas brasileiros em diversas frentes.
Cristian Ribera e as esperanças para Milão e Cortina 2026
Em fevereiro, o jovem rondoniense Cristian Ribera se destacou ao se tornar campeão mundial de esqui cross country em Trondheim, Noruega, na prova de sprint (um quilômetro). Essa conquista histórica o coloca como uma grande esperança de medalha para o Brasil na Paralimpíada de Inverno, que acontecerá nas cidades italianas de Milão e Cortina, em março de 2026. A performance de Ribera evidencia o potencial do Brasil em esportes de inverno, uma área em crescente desenvolvimento e reconhecimento.
Desafios e tensões nos bastidores
Apesar dos gloriosos resultados nas competições, a temporada também foi marcada por controvérsias e tensões internas que exigiram atenção e ressaltaram a necessidade de melhorias na gestão esportiva. A valorização e o apoio aos atletas são temas recorrentes, e um caso específico trouxe à tona discussões importantes sobre o funcionamento das confederações e o sistema de incentivos.
O embate no tênis de mesa: Bolsa Atleta em discussão
Embora o Campeonato Mundial de Tênis de Mesa esteja programado apenas para 2026, a modalidade ganhou destaque em 2024 devido a um embate nos bastidores. Em julho, um grupo de nove atletas, que somam 16 medalhas paralímpicas, enviou um ofício ao Ministério do Esporte manifestando profunda insatisfação com a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM). As reclamações centravam-se em exigências polêmicas relacionadas ao programa Bolsa Atleta, principal categoria do Bolsa-Pódio.
Entre as principais queixas, estava a obrigatoriedade de os atletas investirem um percentual (que variava de 30% a 60%) do valor recebido do Bolsa-Pódio para custear sua participação em campeonatos internacionais. Além disso, a CBTM exigia que o planejamento esportivo de cada atleta contemplasse pelo menos dez eventos fora do país para que o plano fosse aprovado pela entidade, condição essencial para o recebimento do benefício junto ao Governo Federal.
No ofício, os mesatenistas solicitaram, entre outras ações, a intervenção na confederação, o reconhecimento da excelência por resultados e não pela quantidade de eventos disputados, e a elaboração de um planejamento com “critérios técnicos objetivos”. Em resposta, o Ministério do Esporte esclareceu que “não há previsão, no normativo vigente do Programa Bolsa Atleta”, para tais exigências por parte da CBTM. Diante da repercussão e da posição do Ministério, a entidade acabou revogando a medida. Contudo, o racha e a insatisfação entre os atletas e a confederação, infelizmente, persistem, evidenciando a necessidade de um diálogo mais transparente e de políticas que priorizem o bem-estar e o desenvolvimento dos paratletas.
Conclusão
A temporada paralímpica de 2024 foi um mosaico de triunfos históricos e desafios complexos para o esporte brasileiro. As performances dominantes em Campeonatos Mundiais de atletismo e judô, com o Brasil atingindo o topo do quadro de medalhas e superando potências, reafirmaram a posição do país como uma força global nos esportes paralímpicos. As conquistas em natação, canoagem, ciclismo, halterofilismo e tênis em cadeira de rodas, somadas à promessa dos esportes de inverno, demonstram a amplitude e o talento dos nossos atletas. Contudo, a controvérsia no tênis de mesa sublinhou a importância de uma gestão transparente e alinhada aos interesses dos paratletas. À medida que o ciclo para Los Angeles 2028 avança, o cenário é de otimismo cauteloso, com a esperança de que os sucessos em campo e a superação de desafios nos bastidores impulsionem o Brasil a novas alturas no esporte paralímpico mundial.
FAQ
Quais modalidades trouxeram os maiores destaques para o Brasil na última temporada paralímpica?
O atletismo e o judô foram as modalidades que mais se destacaram, com o Brasil liderando os quadros de medalhas em seus respectivos Campeonatos Mundiais, alcançando resultados históricos.
Qual foi a polêmica envolvendo a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) e os atletas?
Atletas de tênis de mesa manifestaram insatisfação com a CBTM por exigências polêmicas no programa Bolsa Atleta, incluindo a obrigatoriedade de custear a participação em campeonatos internacionais com parte do benefício e a exigência de um número mínimo de eventos internacionais para aprovação do plano esportivo.
Quais atletas se destacaram individualmente nos Campeonatos Mundiais?
Jerusa Geber (atletismo) com dois ouros e superando recorde de medalhas, Alana Maldonado e Wilians Araújo (judô) com tricampeonatos e bicampeonatos, Gabriel Araújo e Carol Santiago (natação) com três ouros cada, Lauro Chaman (ciclismo) tricampeão, e Cristian Ribera (esqui cross country) campeão mundial.
O Brasil teve bons resultados em esportes de inverno este ano?
Sim, Cristian Ribera se tornou campeão mundial de esqui cross country, sendo uma grande esperança de medalha para o Brasil nos Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão e Cortina em 2026.
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