
Um recente levantamento aponta que cerca de metade dos profissionais médicos que atuam em unidades de terapia intensiva (UTIs) no Brasil enfrentam níveis elevados de exaustão mental e emocional. Adicionalmente, uma parcela significativa desses especialistas manifesta um baixo grau de satisfação com suas funções.
Os dados alarmantes foram compilados pelo Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, uma iniciativa conjunta da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) e do Conselho Federal de Medicina (CFM). A pesquisa coletou informações de 2.338 médicos em todas as 26 unidades federativas e no Distrito Federal.
Em análise dos resultados, a Amib destacou que os achados sinalizam uma considerável vulnerabilidade dos intensivistas à síndrome de burnout, condição caracterizada por um profundo desgaste emocional, distanciamento afetivo e uma percepção reduzida de realização pessoal.
Pressão Diferenciada em Setores Público e Privado
Estevam Rivello, diretor de Comunicação do CFM, ressaltou em coletiva de imprensa as disparidades na pressão enfrentada por médicos intensivistas que atuam nos sistemas de saúde público e privado. Rivello observou que, no setor suplementar, os profissionais geralmente dispõem de uma estrutura mais robusta e de um arsenal terapêutico mais acessível para o tratamento de pacientes graves.
Em contraste, o ambiente público, segundo ele, demonstra um grau de estresse superior. Isso se deve, em grande parte, à remuneração inferior e ao maior número de vínculos empregatícios que esses profissionais frequentemente mantêm em comparação com o serviço privado.
Panorama do Esgotamento Profissional
Os resultados do estudo revelam que uma expressiva maioria, quatro em cada cinco médicos de UTI (79,7%), necessita de atenção e cuidado em relação à sua saúde emocional. Desse total, 31,2% reportaram esgotamento moderado, enquanto 48,5% indicaram um alto nível de desgaste. Apenas 20,3% dos entrevistados relataram baixos níveis de exaustão emocional.
A Amib atribui esse quadro a uma conjunção de fatores, incluindo jornadas de trabalho prolongadas, exposição contínua a situações críticas, frequentemente agravadas pela precariedade da infraestrutura, e a crescente demanda por cuidados intensivos em uma rede de cobertura limitada. O confronto diário com a dor, o sofrimento e a morte, bem como a necessidade de decisões ágeis e precisas, também são apontados como potenciais contribuintes para a situação.
Paralelamente ao esgotamento, a pesquisa identificou que 46,4% dos entrevistados expressam baixa satisfação com suas atividades, um patamar semelhante ao dos que indicaram altos níveis de desgaste mental. Ao incluir aqueles com satisfação moderada, a porcentagem de profissionais que não se sentem totalmente realizados no exercício da medicina em UTIs sobe para 84,5%.
Despersonalização e Impacto na Qualidade do Cuidado
O levantamento também abordou a questão da despersonalização, um fenômeno em que os intensivistas desenvolvem um distanciamento emocional, adotando posturas que podem ser interpretadas como frias, apáticas ou cínicas em relação a pacientes e colegas. Cerca de 45,6% dos médicos intensivistas admitem algum grau desse comportamento.
A Amib alerta que esse comportamento é prejudicial ao ambiente assistencial, comprometendo a qualidade do atendimento, afetando a comunicação das equipes e indo de encontro aos princípios da humanização do cuidado. Entre os entrevistados, 29,6% apresentaram um nível moderado de despersonalização, enquanto 16% reportaram níveis elevados.
Ainda sobre o tema, o estudo observou uma correlação entre o nível de especialização e o bem-estar profissional. Médicos com maior grau de especialização no ambiente intensivo tendem a apresentar menores níveis de esgotamento mental e distanciamento afetivo, além de maior satisfação pessoal com a profissão. Por outro lado, profissionais menos especializados registram índices mais altos de esgotamento e menor satisfação.
Especificamente, 44,5% dos médicos intensivistas especializados indicaram alto esgotamento emocional, 12,7% alto grau de despersonalização e 39,8% baixa satisfação. Em contraste, entre os médicos generalistas atuando em UTIs, esses percentuais foram de 52,3%, 20,1% e 50,7%, respectivamente, evidenciando uma maior vulnerabilidade deste grupo.
