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Fila por Transplante de Córnea no Brasil Ultrapassa 37 Mil Pessoas, Revela CBO

© Divulgação/HFB

O Brasil registra atualmente uma fila de espera para transplantes de córnea que atinge 37.719 indivíduos em todo o território nacional. Essa quantidade representa um aumento de 24% em apenas seis meses, dado que em dezembro do ano anterior, o número era de 32.639 pacientes. Os dados são fornecidos pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), que acompanha o cenário da saúde ocular no país.

Apesar do cenário de crescente demanda, a instituição aponta que o ano passado foi um período histórico para o Brasil em relação à realização desses procedimentos. Foram efetuadas 17.790 cirurgias, um volume nunca antes alcançado, contribuindo significativamente para a recuperação da visão de inúmeros pacientes. Contudo, o sistema nacional de transplantes de córnea se depara com um desafio singular: apesar de estar operando próximo à capacidade de suprir a demanda anual, a lista de espera ativa continua a se expandir rapidamente devido ao ritmo acelerado de novas indicações médicas.

Como consequência do acúmulo de casos ao longo dos anos, o tempo médio de espera para um transplante de córnea no país atingiu 370 dias. Este período é mais que o dobro do registrado uma década atrás, quando a espera era de 174 dias, evidenciando uma deterioração no prazo para a realização das cirurgias.

Causas e Desafios do Cenário Atual

Segundo o CBO, a situação complexa resulta de uma combinação de múltiplos fatores. Entre eles, destacam-se a ausência de reajustes nos valores pagos pelos procedimentos realizados, o que afeta a sustentabilidade dos serviços, e o impacto duradouro da pandemia de COVID-19. A crise sanitária gerou um represamento de pacientes, especialmente entre 2020 e 2023, devido à suspensão de cirurgias eletivas.

Outro problema apontado pelos especialistas é a dificuldade que os bancos de olhos enfrentam para manter suas operações. Os altos custos dos insumos, cotados em dólar, dificultam a manutenção e o funcionamento adequado dessas estruturas essenciais. Adicionalmente, o aumento das exigências nas etapas de produção e processamento da córnea, incluindo a necessidade de gestão de qualidade, adiciona mais um nível de complexidade e custo ao processo.

O conselho enfatiza que a soma desses fatores cria um desequilíbrio financeiro para os bancos de olhos, que recebem o mesmo valor de uma década atrás, mas agora precisam arcar com um número maior de requisitos regulatórios e custos operacionais elevados.

Disparidades Regionais na Gestão da Fila

No panorama nacional, alguns estados se destacam pela eficiência na gestão da fila de transplantes. O Ceará, por exemplo, é reconhecido como o líder em agilidade, com 1.371 transplantes realizados no último ano. Apesar de ter registrado 1.639 novos ingressos na fila no mesmo período, a alta rotatividade do seu sistema permitiu que o estado encerrasse dezembro com apenas 93 pacientes ativos em espera. O Mato Grosso também apresenta um desempenho notável, com somente 37 pacientes aguardando pelo procedimento.

Em contraste, o Rio de Janeiro enfrenta um desequilíbrio significativo. Foram realizados apenas 653 transplantes no ano passado, enquanto 1.720 novos pacientes entraram na fila. Esse cenário resultou em uma lista de espera acumulada de 4.760 pessoas ativas em dezembro. Grandes estados como São Paulo e Minas Gerais também possuem filas expressivas, com 7.505 e 4.532 pacientes ativos, respectivamente, mas demonstram uma relação fila/transplante mais equilibrada em comparação à situação fluminense. Os estados do Amapá e Roraima, por sua vez, não registraram a realização de nenhum transplante de córnea no último ano.

Avaliação Internacional e Perfil dos Pacientes

Apesar dos desafios internos e dos volumes expressivos na fila, especialistas do CBO confirmam que o Brasil mantém uma boa reputação internacional no campo dos transplantes de córnea. O desempenho do país é considerado compatível com o de nações como Canadá, Austrália e alguns países europeus. Na América Latina, o Brasil se destaca como referência, superando significativamente Argentina, Chile, Colômbia e México.

A análise do perfil dos candidatos à espera revela que as mulheres constituem a maioria, representando 56% dos pacientes. Em relação à faixa etária, indivíduos com 65 anos ou mais somam quase metade da fila (47%), o que, segundo o CBO, reflete o envelhecimento populacional e o aumento da incidência de doenças degenerativas da córnea. Um ponto de preocupação é a fila infantojuvenil, que acumulou 753 crianças e adolescentes ativos à espera de transplante, um aumento em relação aos 616 pacientes registrados em dezembro do ano anterior.

Retrospectiva e Discussões Futuras

O ano de 2020 é identificado como um marco crucial para a formação do cenário atual. As medidas sanitárias impostas pela pandemia de COVID-19 resultaram na suspensão de cirurgias eletivas, incluindo os transplantes de córnea, a fim de liberar leitos para pacientes com coronavírus. Naquele ano, foram realizados apenas 7.349 transplantes, menos da metade dos 14.942 procedimentos efetuados no ano anterior.

No entanto, após o impacto inicial da pandemia, o número de transplantes demonstrou uma recuperação progressiva: 12.869 em 2021, 14.082 em 2022, 16.028 em 2023, 17.108 em 2024, culminando no recorde de 17.790 cirurgias em 2025. Este panorama atual dos transplantes de córnea no Brasil é um dos temas centrais em debate durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO 2026), que está sendo realizado em Salvador e se estende até o próximo sábado.

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