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Fortaleza reavalia conceito de mobilidade urbana diante de novas intervenções e crescimento da frota

Júlia Lopes

A capital cearense, Fortaleza, está prestes a implementar seis novas intervenções de infraestrutura viária até o final de 2026. Essas obras, que incluem túneis, viadutos e alças, foram anunciadas pela Prefeitura com o objetivo de otimizar o fluxo de veículos e mitigar os congestionamentos. Os projetos contemplam áreas como Parangaba e Aldeota, além de uma conexão com o município vizinho de Caucaia, na Região Metropolitana.

Recentemente, no final de julho, a administração municipal também alterou o uso de uma das faixas exclusivas para ônibus na avenida Bezerra de Menezes, permitindo a circulação de automóveis nos finais de semana e feriados. A justificativa para essa medida, conforme o Paço Municipal, foi a “redução da demanda de passageiros de ônibus nesses períodos”.

Nesse panorama de expansão da infraestrutura e ajustes no tráfego, especialistas foram consultados para discutir uma questão central: o aumento expressivo da frota de veículos, combinado com o pacote de obras viárias, pode sinalizar uma redefinição do entendimento de mobilidade urbana?

Crescimento da frota versus estabilidade populacional

Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) oferecem um panorama para essa discussão. Em 2015, Fortaleza registrava uma população de 2.591.191 habitantes. Naquele mesmo ano, a frota de veículos, englobando carros e motocicletas, era de 821.337, resultando em uma média de 0,31 veículos por morador.

Dez anos depois, a projeção do instituto para 2025 estima uma população de 2.578.483 habitantes, uma redução de cerca de 12 mil pessoas, indicando um crescimento populacional inferior a 1% na década. Em contrapartida, a frota de automóveis e motocicletas atingiu a marca de 1.037.269 unidades. Consequentemente, a proporção de veículos por habitante subiu para 0,40. Isso demonstra que, enquanto a população permaneceu praticamente estável, a frota de veículos expandiu-se aproximadamente 27% no período.

O debate sobre o conceito de mobilidade urbana

Tradicionalmente, a política de mobilidade urbana preconiza a priorização do transporte coletivo e dos modais ativos, como o deslocamento a pé e de bicicleta. No entanto, diante do avanço da frota de veículos individuais, questiona-se a necessidade de uma revisão desse conceito.

Para Ademar Gondim, professor e chefe do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), a essência da mobilidade urbana permanece inalterada. Ele defende a manutenção da prioridade ao transporte público e aos meios de locomoção não poluentes. Contudo, Gondim ressalta que obras viárias, como os viadutos, podem integrar uma política de mobilidade, desde que contemplem faixas exclusivas para o transporte coletivo. Embora se oponha à restrição de espaços para carros, ele manifesta preocupação com a segurança das motocicletas como alternativa de transporte, citando os elevados custos sociais e humanos decorrentes de acidentes. Sua proposta é fortalecer a qualidade do transporte público, oferecendo uma opção atrativa aos cidadãos.

Em uma visão parcialmente divergente, o consultor em mobilidade urbana Felipe Alves concorda que o conceito não necessita de alteração em virtude do aumento da frota. Contudo, Alves alerta que a construção de grandes obras viárias pode, paradoxalmente, incentivar o uso de veículos particulares, sem resolver de forma efetiva os problemas de deslocamento. Ele argumenta que o crescimento da frota não deve ser um catalisador para intervenções que promovam o transporte individual, criticando políticas que ele classifica como “elitistas”, por beneficiarem uma parcela menor da população, apesar de estudos indicarem caminhos distintos.

A equipe de reportagem buscou esclarecimentos junto à Secretaria de Infraestrutura (Seinf) da Capital, questionando se as obras seriam classificadas como de mobilidade urbana, se a Prefeitura cogita alterar o conceito de mobilidade diante do cenário da frota, e como a gestão planeja balancear investimentos em infraestrutura para veículos individuais com o incentivo ao transporte coletivo e meios não poluentes. Até o encerramento da produção deste conteúdo, não houve retorno da secretaria.

O sociólogo Irapuan Peixoto, professor e pesquisador do Laboratório de Estudos em Educação, Política e Cidade (Lepec/UFC), por sua vez, atribui o crescimento da frota de veículos particulares a uma “demanda de mercado” impulsionada pela “percepção de ineficiência do transporte público” e pela enraizada “cultura do carro”.

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