
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 1990/24, instituindo a Política Nacional para a Recuperação da Vegetação da Caatinga. A nova legislação visa direcionar a recuperação e o desenvolvimento sustentável do único bioma exclusivamente brasileiro, que abriga aproximadamente 30 milhões de pessoas em mais de mil municípios, além de inúmeras comunidades tradicionais, assentamentos rurais e terras indígenas. A Caatinga, essencial para a produção agrícola e conservação ambiental do país, carecia até então de um marco regulatório federal específico para sua proteção.
Este diploma legal estabelece diretrizes para a restauração de áreas degradadas, o reforço da segurança hídrica, a expansão da produção de alimentos e o incentivo a atividades econômicas alinhadas com a sustentabilidade do bioma. A promulgação da lei foi acompanhada do lançamento do Programa Recaatingar, uma iniciativa que recebeu um aporte inicial de R$ 60 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O programa tem como meta fomentar práticas produtivas que coadunem com a conservação ambiental, gerando renda e promovendo a recuperação da flora nativa.
Significado Histórico e Impactos Passados
Especialistas consideram a nova legislação um divisor de águas. Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente, enfatiza que a região da Caatinga enfrentou, ao longo dos séculos, as consequências de sucessivos ciclos econômicos. Atividades como a pecuária extensiva, o cultivo da cana-de-açúcar e a produção de algodão foram citadas como fatores que contribuíram para a degradação ambiental e a exploração inadequada dos recursos naturais. A política atual representa uma tentativa de corrigir esse legado histórico, buscando consolidar um novo modelo de desenvolvimento para o Semiárido que valorize o potencial produtivo da Caatinga e suas populações residentes.
Apesar de cobrir cerca de 10% do território nacional, o ecossistema desempenha uma função estratégica no equilíbrio climático. Conforme dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente, a Caatinga é responsável por aproximadamente metade do carbono sequestrado no Brasil, evidenciando sua relevância no combate às mudanças climáticas globais.
Perspectivas da Sociedade Civil e Desafios Futuros
Organizações da sociedade civil celebram o avanço, mas ressaltam a importância da alocação de recursos permanentes para a efetiva implementação da política. Ivi Dantas, representante da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), aponta que a lei estabelece um alicerce crucial para enfrentar a degradação ambiental e a desertificação, porém, a ausência de definições orçamentárias pode limitar resultados em larga escala. Ela defende a necessidade de investimentos contínuos em restauração produtiva, controle do desmatamento e o fortalecimento das comunidades que habitam o bioma, reconhecendo-as como agentes principais na busca por soluções regionais.
Polô Satarê, do Fórum de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS), compartilha uma avaliação similar. Para ele, além do suporte financeiro, é imperativo definir metas claras e assegurar a participação ativa de agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas, outras comunidades tradicionais e organizações sociais no processo de execução da política. O Programa Recaatingar baseia-se no conceito de “recaatingamento”, desenvolvido nos anos 2000, que transcende a mera recuperação da vegetação, integrando conservação, valorização cultural e geração de renda por meio do envolvimento direto das comunidades.
Entretanto, novos desafios surgem com o avanço institucional. Um debate central envolve a expansão dos parques de energia eólica e solar no Semiárido. Embora consideradas vitais para a transição energética, tais empreendimentos levantam preocupações quanto à supressão da vegetação nativa, à fragmentação de habitats e aos conflitos territoriais. Entidades da região defendem que a expansão das energias renováveis seja planejada de forma adequada, respeitando as comunidades locais e evitando novos impactos socioambientais. Enquanto isso, governos estaduais e organizações sociais intensificam projetos de recaatingamento no Nordeste, beneficiando produtores rurais e promovendo o manejo sustentável de espécies nativas como umbuzeiro, quixabeira, baraúna e xique-xique, fortalecendo economias adaptadas ao ambiente local.
