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Motta defende servidora investigada pela PF, sem desvio na decisão de Dino

© Lula Marques/Agência Brasil

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), manifestou-se publicamente em defesa de Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, uma servidora da casa que foi alvo de mandados de busca e apreensão pela Polícia Federal na última sexta-feira. A operação policial, que se debruça sobre possíveis irregularidades em obras financiadas por emendas parlamentares, reacende o debate sobre a transparência na aplicação de verbas públicas. Mariângela Fialek, que já atuou diretamente com o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, é uma figura central nas investigações que apuram o funcionamento do que ficou conhecido como “orçamento secreto”, um tema de grande relevância e que exige clareza e detalhamento para a compreensão da opinião pública. As investigações buscam desvendar a mecânica e os possíveis desvios na destinação de recursos federais.

A defesa de Hugo Motta e o escopo da investigação

A declaração do presidente da Câmara, Hugo Motta, veio em um momento de intensa repercussão das ações da Polícia Federal. Ao se posicionar, Motta buscou ressaltar o profissionalismo e a competência da servidora, ao mesmo tempo em que analisou a decisão judicial que embasou as buscas.

Elogios à servidora e o papel nas emendas

Em nota oficial, Hugo Motta fez questão de sublinhar a trajetória e a conduta de Mariângela Fialek no serviço público. Ele a descreveu como “uma técnica competente, responsável e comprometida com a boa gestão da coisa pública”, buscando contrapor a imagem que poderia ser associada a uma pessoa sob investigação policial. Motta enfatizou ainda que Tuca desempenhou um papel crucial no “aprimoramento dos sistemas de rastreabilidade da proposição, indicação e execução de emendas parlamentares”. Este ponto é particularmente relevante, pois a operação da PF justamente mira na suposta falta de transparência e rastreabilidade na destinação de verbas oriundas das emendas, especialmente as vinculadas ao polêmico “orçamento secreto”. A defesa de Motta sugere que a servidora teria, na verdade, contribuído para aprimorar os mecanismos que agora são questionados, adicionando uma camada de complexidade à narrativa em torno da investigação.

Divergência sobre a decisão de Flávio Dino

Um dos pontos mais sensíveis na defesa de Motta reside em sua interpretação da decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou as diligências contra Mariângela Fialek. O presidente da Câmara afirmou, categoricamente, não ter encontrado no documento de Dino “nenhum ato de desvio de verbas públicas. Nenhum”. Essa leitura contrasta com a própria natureza da operação policial, que investiga a prática de crimes relacionados a irregularidades na aplicação de recursos. No entanto, Motta ponderou que eventuais desvios, se confirmados, devem ser rigorosamente apurados, separando a mera indicação de emendas parlamentares – que ele classifica como não impositivas – da efetiva execução dessas verbas por seus destinatários finais. Ele reforçou a necessidade de um acompanhamento rigoroso pelos órgãos de controle sobre a execução dos recursos públicos, não apenas os de emendas, mas também os provenientes do Poder Executivo. Essa distinção proposta por Motta sugere uma linha de defesa que procura desvincular a responsabilidade de servidores do Legislativo da fiscalização final do uso das verbas.

Os indícios do “orçamento secreto” e o papel de Mariângela Fialek

A investigação da Polícia Federal, autorizada pelo ministro Flávio Dino, desenrola-se em torno de uma série de indícios que apontam para uma atuação sistemática na gestão do chamado “orçamento secreto”. Mariângela Fialek, a servidora em questão, surge como peça-chave nesse complexo esquema.

Testemunhos parlamentares e direcionamento de verbas

O ponto de partida para as investigações dos procedimentos de Mariângela Fialek foi o depoimento de sete indivíduos: seis parlamentares e uma servidora da Câmara. Entre os deputados que testemunharam, estão Glauber Braga (Psol-RJ), José Rocha (União-BA), Adriana Ventura (Novo-SP), Fernando Marangoni (União-SP), Dr. Francisco (PT-PI), além do senador Cleitinho (Republicanos-MG). Seus relatos, convergentes, sugerem que “Tuca” desempenhava um papel central no encaminhamento de ofícios da Presidência da Câmara às comissões, com o intuito de ordenar a liberação de emendas. O foco principal dessas indicações, segundo os testemunhos, era o estado de Alagoas, base eleitoral do ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, com quem Tuca trabalhou proximamente. Essa prática reforça a suspeita de um “redirecionamento forçado” de recursos de emendas, uma das preocupações levantadas pelo ministro Flávio Dino em suas análises preliminares. O “orçamento secreto”, para contextualizar, refere-se à destinação de verbas públicas por meio de emendas sem a identificação clara do parlamentar que as indicou ou dos beneficiários finais, dificultando sobremaneira a fiscalização e a responsabilização.

A quebra de sigilo e as lacunas nos dados

Mariângela Fialek, que atualmente ocupa um cargo no gabinete da presidência do PP na Câmara, já havia tido seu sigilo telemático quebrado em etapas anteriores da investigação. Contudo, a Polícia Federal identificou a necessidade de realizar mandados de busca e apreensão físicos ao constatar a ausência de mensagens salvas em aparelhos ou nuvens de dados, mesmo havendo fortes indícios da prática de crimes. Essa lacuna de informações digitais levantou suspeitas sobre uma possível tentativa de ocultação de provas. O ministro Flávio Dino endossou a autorização para as buscas, citando a “concreta possibilidade de que a representada tenha adotado condutas voltadas a impedir a realização de backup de seus dados mais sensíveis em ambiente de nuvem, mantendo acervo em meios físicos (papéis, máquinas, etc)”. Essa observação de Dino sugere uma ação deliberada para evitar o rastreamento digital, o que intensificou a necessidade de uma varredura física para obter evidências.

A “conta de padaria” e o redirecionamento forçado

O aprofundamento das investigações da PF revelou detalhes alarmantes sobre a informalidade e a suposta manipulação no direcionamento das emendas. Um relatório parcial da força-tarefa destacou que, desde 2020, Tuca ocupou diversos cargos estratégicos, tanto em empresas públicas quanto no Legislativo, sempre por indicação de Arthur Lira. Essas posições teriam lhe permitido manipular o direcionamento das emendas. O ponto de virada veio com a descoberta de uma anotação à mão que, de forma surpreendente, coincidia com o direcionamento de emendas. Os investigadores expressaram “o incomum desapego à formalidade” na elaboração do Orçamento da União, exemplificado por essa descoberta. Em uma comparação que chocou a opinião pública, os investigadores afirmaram: “Uma anotação à mão, realizada de maneira rudimentar, foi responsável pela realocação de recursos de um Município para outro. Lamentavelmente, não há como não comparar a maneira de controlar e organizar o orçamento secreto coordenado por TUCA a uma ‘conta de padaria’”. Flávio Dino, por sua vez, frisou que os indícios apontam para uma “atuação contínua, sistemática e estruturada” na organização do orçamento secreto, reforçando a suspeita de “redirecionamento forçado” de recursos por Lira. Dino é também o relator de uma ação em que o Supremo Tribunal Federal vedou as práticas do orçamento secreto, exigindo que a Câmara dos Deputados adotasse critérios mínimos de transparência e rastreabilidade do dinheiro público até o destinatário final, o que demonstra a gravidade das acusações atuais.

Conclusão

A defesa de Mariângela Fialek por parte de Hugo Motta e as subsequentes investigações da Polícia Federal em torno do “orçamento secreto” revelam a complexidade e a controvérsia que cercam a alocação de recursos públicos no Brasil. Enquanto Motta enfatiza a competência da servidora e questiona a existência de desvios na decisão judicial, os indícios levantados pelos depoimentos parlamentares e pela própria PF apontam para uma atuação sistemática e, por vezes, informal, na manipulação de emendas. A descoberta de anotações manuais e a ausência de dados digitais sensíveis intensificam as preocupações sobre a transparência e a correta aplicação do dinheiro público. O desenrolar deste caso será fundamental para aprimorar os mecanismos de controle e garantir a integridade da gestão fiscal no país, reafirmando o compromisso com a clareza e a responsabilidade na administração.

FAQ

Quem é Mariângela Fialek e por que ela está sendo investigada?
Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, é uma servidora da Câmara dos Deputados que foi alvo de mandados de busca e apreensão pela Polícia Federal. Ela é investigada por sua suposta participação na manipulação e direcionamento de emendas parlamentares do “orçamento secreto”, especialmente para o estado de Alagoas, período em que trabalhou com o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira.

O que é o “orçamento secreto” e como ele funciona?
O “orçamento secreto” é a denominação popular para as emendas de relator (RP9), um mecanismo de destinação de verbas públicas em que não havia identificação clara do parlamentar que fez a indicação do recurso ou dos beneficiários finais. Isso dificultava a rastreabilidade e a fiscalização do dinheiro público. O Supremo Tribunal Federal (STF) já vedou as práticas que caracterizavam o orçamento secreto, exigindo maior transparência.

Qual o papel do ministro Flávio Dino nesta investigação?
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi o responsável por autorizar as diligências e os mandados de busca e apreensão contra Mariângela Fialek. Ele é também o relator de uma ação que proibiu as práticas do orçamento secreto, reforçando a exigência de transparência na aplicação das verbas públicas. Suas decisões e análises têm sido cruciais para o avanço da investigação.

Por que a Polícia Federal realizou buscas físicas se o sigilo telemático já havia sido quebrado?
A Polícia Federal realizou buscas físicas após constatar a ausência de mensagens e dados importantes em aparelhos digitais e nuvens, mesmo após a quebra do sigilo telemático. O ministro Flávio Dino indicou a “concreta possibilidade” de que a servidora tenha tentado impedir o backup de dados sensíveis, mantendo informações em meios físicos, o que justificou a necessidade das buscas presenciais.

Para se manter atualizado sobre os desdobramentos desta e outras investigações que impactam a administração pública, acompanhe nossas próximas publicações e análises.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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