
Sinara Rúbia, diretora do Museu da História e Cultura Afro-Brasileira (Muhcab), no centro do Rio de Janeiro, se autodenomina uma “pantera negra” do seu tempo. Filha de Iansã, na tradição do Candomblé, atriz, autora e educadora, ela lidera o museu dedicado a valorizar narrativas negras e recontar a história do Brasil.
“Esse é um museu certo, um museu vivo, quilombo, que trabalha tanto o acervo físico, quanto o nosso patrimônio cultural afro-brasileiro, que é imaterial”, afirma Sinara.
A trajetória de Sinara até a direção do Muhcab, situado no prédio da primeira escola pública do país, é marcada por experiências diversas. Nascida em Itaperuna, interior do estado, ela cuidou das irmãs mais novas e enfrentou situações de racismo em Petrópolis. No Rio de Janeiro, encontrou acolhimento no movimento de mulheres negras e se transformou. Foi no Grupo Cultural Balé das Iyabas que surgiu a performance do “Partido dos Panteras Negras”, levada às ruas por Sinara e amigas.
A primeira apresentação do grupo ocorreu no carnaval de 2014, com reproduções de metralhadoras, em referência ao movimento de defesa dos direitos dos negros nos Estados Unidos. “No domingo de carnaval, saímos da Glória, marchando, de Black Panther, passamos no meio da feira em direção a um bloco, no centro”, recorda. As pessoas aplaudiam e, durante a performance, cada integrante apresentava sua “arma”: um fio de contas, um livro, ou outro objeto simbólico, representando figuras como Angela Davis, Carolina Maria de Jesus e mães de santo.
A apresentação do grupo ganhou destaque nacional após a I Marcha das Mulheres Negras, em 2015, em Brasília, quando elas performaram vestidas de panteras. As imagens viralizaram e, nessa ocasião, Sinara substituiu a metralhadora por uma espada, símbolo de sua orixá.
“Para muitas mulheres negras que perderam seus filhos vítimas para a violência, a arma é símbolo de letalidade, e não de autodefesa, como era para as panteras”, explica Sinara.
“Eu sou uma pantera negra não só de uma performance. Eu sou uma pantera negra do meu tempo e do contexto cultural do meu país”, afirma Sinara. “Sou uma pantera educadora, ativista, que estuda, que faz parte da intelectualidade negra, eu sou formadora, formei professoras de literatura e contadores de histórias, agora, estou na área de patrimônio imaterial porque trabalho a tradição oral”, justifica.
Em 2015, durante a I Marcha das Mulheres Negras, a caminhada foi interrompida por tiros disparados por policiais civis, um momento que ilustra a violência e o racismo enfrentados pela população negra.
Apesar dos avanços, Sinara destaca que as mulheres negras permanecem na base da pirâmide das desigualdades, mesmo com ascensão profissional. Ela própria é autora de seis livros, mestra e doutoranda pela Fundação Getulio Vargas, onde pesquisa sobre as erveiras.
À frente do Muhcab, Sinara mostra que a instituição não pode se dissociar de manifestações culturais. Para ela, uma gestão comprometida em reverter o racismo é uma forma de reparação.
“Parafraseando Nego Bispo, esse museu aqui não é para contar a história de ‘nós perdendo’, mas de ‘nós ganhando’”, diz. “Por isso, a gente conta a história da capoeira, do samba, do maculelê, dos quilombos, é um museu que conta a história de protagonismos, memória, orgulho e identidade, o ‘nós ganhando’”, frisa.
Recentemente, o museu inaugurou uma galeria de arte negra, o Espaço Berê, com o objetivo de apresentar obras que dialoguem com memória, ancestralidade e afeto.
A gestão de Sinara no Muhcab, a partir de uma perspectiva negra, busca reparar a desumanização de pessoas pretas e pardas, legado da escravidão.
“Estamos em um momento da sociedade, de questionar os acervos dos museus, pelo caráter colonial, muitas vezes, dos acervos, fruto de roubos e expropriações. Daí, a importância de ter um museu negro, como uma mulher negra, é uma disruptura”, destaca.
Sinara tem um próximo compromisso em Brasília, onde voltará a empunhar a espada de Iansã, como uma pantera.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
