
Na costa oeste do Ceará, a praia de Tatajuba, situada no município de Camocim, revela um passado intrigante. Sob as dunas que atraem turistas, encontram-se os restos de uma antiga comunidade de pescadores e agricultores, que foi progressivamente enterrada pela movimentação das areias entre as décadas de 1970 e 1980.
O Impacto das Dunas Móveis na Vila de Tatajuba
Localizada em uma Área de Proteção Ambiental (APA), conforme a Lei Municipal Nº. 559/94, a região foi recentemente reclassificada. As características naturais, como dunas e lagoas, fazem parte da famosa Rota das Emoções, que inclui também Jericoacoara e o Delta do Parnaíba. A vila de Tatajuba, que existiu antes de ser coberta pelas areias, foi afetada pela dinâmica natural das dunas, resultando no deslocamento da população para áreas adjacentes.
Em relatos de moradores, destaca-se que a igreja local foi uma das primeiras construções a ser engolida, seguida por escolas e residências. Este fenômeno representa um dos episódios naturais mais significativos da história do Ceará.
João Batista dos Santos, conhecido como Tita, compartilha a história de sua família, que foi forçada a deixar a vila. Segundo ele, a comunidade era vibrante, com infraestrutura que incluía igreja, colégio e até posto policial. “Era uma vila muito grande, que se estivesse de pé hoje, seria quase uma cidade”, relembra.
A Nova Realidade do Distrito de Tatajuba
Após a submersão da antiga vila, os habitantes se estabeleceram em comunidades vizinhas, formando o atual distrito de Tatajuba, reconhecido oficialmente em 12 de novembro de 2025, por meio da Lei Municipal nº 1716/2025. Com mais de cinco mil hectares, o distrito abriga quatro vilas: Tatajuba, Baixa Tatajuba, Vila Nova e São Francisco.
Apesar da proteção ambiental, a região atrai um grande número de turistas, especialmente em comparação com a popular Jericoacoara, conhecida por suas belezas naturais e infraestrutura turística. De acordo com a prefeitura de Camocim, em 2025, a cidade recebeu cerca de 892.251 visitantes.
Porém, os moradores expressam preocupações sobre os impactos ambientais e sociais dessa crescente demanda turística sobre suas tradições de pesca e agricultura.
A História e as Mudanças na Comunidade
Embora não exista um consenso sobre a fundação da vila, relatos indicam que, no início do século XX, já havia núcleos familiares na área. João Batista de Paula, conhecido como João ‘Errado’, recorda com tristeza como a duna cobriu a vila, obrigando os residentes a se relocarem. “Não deu para salvar nada”, lamenta ele, refletindo sobre a transformação que a região sofreu ao longo dos anos.
A região, que anteriormente era chamada de Cabaceiras, passou a ser denominada Tatajuba em homenagem a uma árvore local. O crescimento das dunas, que começou a se intensificar na década de 1970, não foi o único desafio enfrentado pela comunidade. A pressão imobiliária e a exploração turística têm alterado a dinâmica social e econômica, levando muitos nativos a venderem suas terras.
