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Águia-cinzenta captura cascavel para alimentar filhote em raro registro na Serra da Canastra, MG

G1

Uma cena pouco comum na natureza foi documentada pelo fotógrafo Alessandro Abdala na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Durante o acompanhamento de um ninho de águia-cinzenta (Urubitinga coronata), uma das aves foi flagrada carregando uma cascavel (Crotalus durissus) viva em suas garras, um momento que uniu dois importantes predadores do bioma Cerrado em uma única imagem impressionante.

A observação faz parte de um monitoramento de cerca de 40 dias, no qual Abdala acompanhava um casal de águias e seu filhote. Ao longo desse período, o fotógrafo registrou os pais levando diversas presas ao jovem, incluindo lagartos, tatus, serpentes e até mesmo um primata.

Contudo, a aparição do macho com uma cascavel capturou a atenção do profissional, que há décadas se dedica à fauna brasileira. Abdala descreveu o momento como extraordinário, destacando a raridade de testemunhar uma águia-cinzenta transportando uma serpente peçonhenta de tal magnitude, algo que ele classificou como uma cena singular na natureza.

Hábitos Alimentares da Águia-cinzenta

Alessandro Abdala dedica mais de duas décadas ao estudo da águia-cinzenta na Serra da Canastra. Apesar de sua vasta experiência, apenas nos últimos anos o fotógrafo conseguiu localizar um ninho ativo da espécie, permitindo um estudo mais aprofundado de seu comportamento alimentar e reprodutivo.

Serpentes são parte da dieta da águia-cinzenta, que pode atingir até 85 centímetros de comprimento, figurando entre as maiores aves de rapina da América do Sul. No entanto, cascavéis não são presas frequentes. Abdala revelou que, em todo seu período de observação, viu uma cascavel ser levada ao ninho apenas duas vezes, indicando que, embora seja uma presa possível, não é um item rotineiro no cardápio.

Além de serpentes, a alimentação da águia-cinzenta abrange uma variedade de mamíferos, como gambás, lebres, tatus e roedores silvestres, bem como outras aves. A espécie também pode, ocasionalmente, consumir carcaças.

Como uma Águia Captura uma Cascavel?

A imagem da águia transportando uma cascavel levanta a questão de como uma ave de rapina consegue capturar uma serpente peçonhenta sem sofrer um ataque. O herpetólogo Willianilson Pessoa explica que essas aves possuem adaptações específicas que minimizam os riscos durante a caça.

As pernas das aves de rapina são revestidas por estruturas escamosas que oferecem uma camada de proteção contra mordidas de serpentes. No entanto, a principal estratégia reside na precisão cirúrgica do ataque. A águia-cinzenta, por exemplo, mira e imobiliza rapidamente a cabeça da serpente com suas garras, evitando botes perigosos ao corpo do animal.

A velocidade também é um fator crucial. Enquanto a cascavel tem movimentos relativamente lentos, a águia consegue surpreender a presa com ataques rápidos e precisos vindos do alto, minimizando a chance de reação da serpente.

Essa combinação de precisão nas investidas, força das garras e velocidade explica a capacidade da águia-cinzenta de capturar animais potencialmente perigosos, como serpentes peçonhentas.

Confirmação da Predação Direta

Um detalhe observado no registro da cascavel era seu aparente estado de ferimento. Abdala indicou que a serpente já exibia lesões severas e parecia ter sido parcialmente consumida quando foi observada, sugerindo que ela foi abatida pela própria ave.

Além disso, o comportamento da águia era totalmente consistente com o transporte de alimento para o filhote que aguardava no ninho, reforçando a hipótese de uma predação direta pelo animal.

Embora a fotografia por si só não permita uma conclusão absoluta, o contexto geral e as observações de Abdala apoiam fortemente a ideia de que a águia caçou a cascavel. O herpetólogo Willianilson Pessoa acrescenta que, embora existam outras possibilidades, como a ave ter encontrado ou tomado a presa de outro animal, a cena se alinha perfeitamente com os hábitos alimentares já conhecidos da espécie.

A cascavel, reconhecida por seu veneno potente e sua capacidade de detectar calor, e a águia-cinzenta, com sua destreza na caça, representam dois dos principais predadores no topo da cadeia alimentar do Cerrado brasileiro.

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