
O economista Christopher Pissarides, laureado com o Nobel, defende que a inteligência artificial (IA) atua primariamente como um instrumento de apoio ao trabalhador, em vez de uma força substitutiva de mão de obra. Essa avaliação foi apresentada durante a 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET), sediada no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), na cidade do Rio de Janeiro.
Pissarides ressaltou um incremento na demanda por profissionais em setores tradicionais, a exemplo da construção civil. Adicionalmente, novas oportunidades de trabalho surgem em campos como segurança, manutenção, robótica e análise de dados de programas, evidenciando a capacidade da IA de gerar novas funções.
O especialista também abordou a rapidez com que as habilidades profissionais se tornam obsoletas em um cenário tecnológico em constante evolução. Uma pesquisa liderada por ele indicou que a probabilidade de um trabalhador necessitar de novos treinamentos após oito anos no mesmo cargo é significativamente maior para aqueles que atuam diretamente com tecnologia. Em contrapartida, profissões ligadas à educação e ao cuidado humano, como professores e enfermeiros, demonstram estabilidade nas competências exigidas, sem grandes alterações após quase uma década.
Desafios: Concentração de Riqueza e Estagnação Salarial
Apesar de um otimismo geral sobre o volume de empregos, Pissarides expressou apreensão quanto à distribuição geográfica e financeira dos benefícios da inteligência artificial. Segundo ele, a IA tem operado como um fator centralizador de riqueza.
Dados de seus estudos revelam que cerca de 60% dos aportes em inteligência artificial se concentram em grandes metrópoles e centros de excelência, como o polo Londres-Oxford-Cambridge no Reino Unido. Essa alta concentração contribui para uma acentuada disparidade econômica regional, deixando as áreas do interior e periféricas à margem do progresso tecnológico.
Em relação aos cargos mais resistentes à automação, como hotelaria e enfermagem, o economista apontou a precarização salarial como o principal problema. Pissarides argumenta que, por serem setores dependentes do contato humano e que não apresentam saltos de produtividade via algoritmos, seus salários correm o risco de estagnar, a menos que haja uma intervenção do poder público.
O professor defendeu, por fim, uma reforma nos sistemas educacionais, criticando a especialização precoce nas escolas. Para prosperar na era da IA, a estratégia mais eficaz não é o domínio de um código técnico específico, mas sim o desenvolvimento da capacidade de ‘aprender a aprender’, combinando ciências exatas com uma sólida formação em ciências sociais e humanidades.
